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Lenine e Bernardo Carvalho: autores, direitos e poderes.

 

No sumário edição de novembro da Revista Piauí estão em sequência uma matéria sobre o novo disco de Lenine em meio às tranformações do mercado fonográfico e um artigo do escritor Bernardo Carvalho sobre a situação do copyright nos tempos de Google. A proximidade dos artigos acaba provocando um diálogo entre eles, e destaca o contraste entre a atitude do compositor pernambucano-carioca e do romancista carioca-paulistano.

Sobre a função (econômica e social) do criador/autor, Bernardo Carvalho diagnostica decadência onde Lenine vê redenção. Ao mesmo tempo, o paralelo entre as indústrias fonográfica e editorial mostra que as apreensões daquela são déjà vu nesta.

Para Carvalho, a situação de conflito entre o direito de autor e as demandas da internet é “de fato e irreversível” e o copyright é cada vez mais “tradicional, restritivo e insustentável”. Porém isso não acontecerá sem esvaziar o papel do autor e da obra de arte, transformando o primeiro em um “negociante de direitos intelectuais segundo a lógica de uma empresa de mídia”, obrigado a “tornar-se cada vez mais público” e a segunda reduzida a um “serviço à comunidade”, por conta da impostura da “democracia”. O romancista, apesar de resignado, não hesita em delatar os culpados, todos lobos com cara de cordeiros. Um seria o Creative Commons — espécie de aliciador do direito autoral do indivíduo. Outro seria o Google, que “assumindo o papel de entidade suprema e legisladora […] sente-se no direito de digitalizar e oferecer gratuitamente tudo o que estiver publicado no mundo, sem a autorização dos autores”.

O suposto desprezo do Google pelos direitos dos autores é só um dos equívocos de Carvalho que acabam empanando o que seria uma argumentação tão clara e precisa como a prosa de livros como Mongólia e Nove noites. Ele incorre em um erro que, de tão difundido, soa como verdade — o copyright é um direito de quem? O Google julga-se no direito de tornar público somente aquilo que foi permitido pelo detentor do direito. E, ao contrário do que argumenta Carvalho, esse não é o autor. Estão no Google Books, acessíveis para pesquisa, somente aqueles livros cujos donos do copyright — as editoras — autorizaram.

Outro equívoco ocorre no primeiro parágrafo quando o romancista equivale “copyright” a “direito autorial”. Copyright — o direito de reprodução — não é direito autoral, e tampouco é um direito do autor. Copyright é um direito da editora (gravadora etc) do qual o autor abriu mão, cedeu, licenciou. Carvalho cita a Convenção de Berna (1886) como marco regular do direito do autor, porém ignora que foi justamente em Berna que o “droit d’auteur” que tinha Victor Hugo como campeão e que buscava proteger os autores individuais, foi solapado pelo “copyright”, uma demanda das empresas que comerciavam as obras que aqueles criavam. A Convenção estabeleceu direitos sobre a propriedade intelectual — basicamente definiu que empresas tem direito a explorar a dita obra.

O que aconteceu em Berna é descrito de modo singelo por Lenine:

“Lá no início parece que juntaram os donos das casas de música, o cara da editora e o inventor do gramofone. Fizeram uma reunião e dividiram tudo. No final, alguém perguntou: e o criador? E responderam: bota aí 5%! Eu acho que o criador nem estava na mesa.”

A matéria de Renato Terra sinaliza que talvez seja a hora do criador tomar um quinhão maior no resultado de suas criações.

“Lenine compõe as músicas, faz a produção, contrata instrumentistas, grava e negocia seus CDs com as gravadoras. Há pouco, o sistema dominante era o inverso: as gravadoras mantinham um plantel de artistas e, por contrato, arregimentavam os meios necessários”. Qual seria então o papel da gravadora hoje? Olivia Hime, da Biscoito Fino, já descobriu: “no novo formato, a gravadora tende a ser mais enxuta, virar parceira do artista”.

Voltando ao paralelo com a indústria editorial, Bernardo Carvalho conta com um excelente parceiro na pessoa (física e jurídica) de Luiz Schwarcz. A Companhia das Letras “arregimentou os meios” para que Carvalho pudesse amadurecer sua obra. Neste caso, não estamos falando de estúdios ou músicos, mas de diálogo criativo, apuro na produção e esmero no lançamento.

Bernardo Carvalho afirma que os novos tempos trouxeram uma mudança no conceito de obra. “O artista passou a ser proprietário da ideia”, lamenta. Pode-se encarar isso como uma maldição (se você estiver bem amparado pelo atual sistema) ou bênção (se você, de fora da festa, está disposto a tomar para si a tarefa de fazer valer, e render, sua criação). Ser proprietário de uma ideia pode significar autonomia para os empreendedores, ou uma “condenação à liberdade” para os introspectivos.


Editora para quê? Só precisamos de autores, leitores… e da Amazon.

 

Amazon assina com escritores, tirando as editoras da jogada

 

New York Times


A Amazon ensinou aos leitores que eles não precisam de livrarias. Agora está encorajando os escritores a descartar seus editores. 

A Amazon está para publicar 122 livros em diversos gêneros, tanto no formato físico quanto em e-book. É uma aceleração assombrosa do programa incipiente de publicação que irá colocar a Amazon de frente contra as empresas que são também seus mais proeminentes fornecedores.

Ela criou um selo, dirigido pelo veterano editor, Laurence Kirshbaum, para amealhar grandes nomes da ficção e da não ficção. Assinou seu primeiro contrato com o escritor de autoajuda Tim Ferris. Na última semana, anunciou as memórias da atriz e diretora Penny Marshall, pelas quais pagou U$ 800 mil, segundo uma pessoa diretamente envolvida com a negociação.

As editoras dizem que a Amazon está agressivamente seduzindo alguns de seus escritores mais importantes. E a companhia está abocanhando os serviços que as editoras, críticos e agentes costumavam prestar.

Vários editores de grande porte declinaram a dar opinião sobre as tentativas da Amazon. “As editoras estão aterrorizadas, e não sabem o que fazer”, disse Dennis Loy  Johson, da Melville House, que é conhecido por dizer o que pensa. 

“Todos têm medo da Amazon”, disse Richard Curtis, um agente de longa carreira, que é também editor de e-books. “Se você é uma livraria, a Amazon têm sido seu concorrente há um bom tempo. Se você é uma editora, um dia vai acordar e a Amazon estará concorrendo com você, também. E, se você é um agente, a Amazon pode estar roubando seu almoço porque está oferecendo aos autores a oportunidade de publicar diretamente e tirá-lo da jogada”.

“É a velha estratégia: dividir para conquistar”, disse Mr. Curtis.

Os executivos da Amazon, entrevistados no quartel-general da companhia, declinaram em dizer quantos editores a empresa contratou, ou quantos livros eles têm sob contrato. Porém negaram que a Amazon seja assim tão poderosa, e disseram que as editoras estão apaixonadas por sua própria decadência.

“É sempre um fim do mundo”, disse Russel Grandinetti, um dos mais altos executivos da Amazon. “As pessoas marcam no relógio”.

Ele destacou, no entanto, que a paisagem está, de alguma forma, se alterando desde que Gutenberg inventou o livro moderno há cerca de 600 anos. “As únicas pessoas realmente necessárias no processo de publicação são o escritor e o leitor”, disse. “Para todos que estiverem entre esses dois haverá riscos e oportunidades”. 

A Amazon começou a dar a todos os autores acesso direto ao respeitado relatório de vendas Bookscan, da Nielsen, que registra quantos livros físicos eles estão vendendo em mercados específicos, como Milwaukee ou Nova Orleãs. Está introduzindo no mercado um tipo de comunicação direta entre os autores e seus fãs, o que só costumava acontecer em tours promocionais. Fez de um obscuro romance histórico alemão um bestseller, sem que nenhum avaliador profissional tivesse opinado.

As editoras viram de relance um futuro no qual, temem, não haverá lugar para elas quando, no mês passado, a Amazon apresentou o Kindle Fire, um tablet para livros e outras mídias vendidas pela Amazon. Jeffrey P. Bezos, o CEO da empresa, referiu-se várias vezes ao Kindle como “um serviço de ponta a ponta”, concebendo um mundo no qual a Amazon desenvolve, promove e entrega o produto.

Para ter uma ideia de quanto as editoras estão perturbadas pela entrada da Amazon em seu negócio, basta olhar para Kiana Davenport, uma escritora havaiana cuja carreira saiu abruptamente dos trilhos no mês passado.

Em 2010, a senhora Davenport assinou contrato com a Riverhead, uma divisão da Penguin, para o livro The Chinese Soldier’s Daughter, uma história de amor passada na Guerra Civil. Ela recebeu adiantamento de U$ 20 mil pelo livro, que, esperava-se, seria lançado em agosto passado.

Se há alguma coisa que os escritores sabem que fazer, hoje em dia, é “correr atrás”. Assim, a senhora Davenport tirou da prateleira uma coletânia premiada de contos que ela havia escrito há 20 anos, a compilou em um e-book chamado de Cannibal Nights e o disponibilizou na Amazon.

Quanto a Penguin descobriu, ficou “furiosa”, e a acusou de quebrar sua promessa contratual de evitar concorrer consigo mesma. Exigiu que Cannibal Nights fosse excluído da Amazon e que todas as menções a esse e-book fossem removidos da internet.

A sra. Davenport recusou-se e, assim, a Penguin cancelou seu romance e ameaçou processar a escritora, se ela não devolver o adiantamento.

“Eles estão querendo deixar um exemplo: se você se autopublica e distribui com a Amazon, isso é por sua conta e risco”, disse Jan Constantine, uma advogada da liga dos escritores que representa a sra. Davenport.

A escritora sabe de que crime está sendo acusada: o de “dormir com o inimigo”.

Se alguns escritores estão correndo danos colaterais, outros estão se beneficiando desse novo arranjo. Laurel Saville estava de fora da jogada no sistema antigo, quando as editoras de New York eram os gatekeepers (os “guardas dos portões”). “Eu recebia um bocado de elogios, mas nada de fechar contrato”, disse a sra. Saville, 48 anos, uma autora de livros de negócios que mora em Little Falls, Nova York.

Há dois anos ela decidiu pagar pela publicação de seu livro de memórias sobre a decadência de sua mãe, de rainha da beleza californiana a moradora de rua e vítima de assassinato. Gastou cerca de U$ 2.200, e conseguiu vendas de 600 exemplares. Nada horrível, mas longe de impressionar.

No último outono, a senhora Saville pagou U$ 100 para ser incluída em uma lista da Publishers’ Weekly de escritores autopublicados. A revista acabou fazendo uma resenha de seu livro de memórias, com uma avaliação morna que, mesmo assim, chamou a atenção dos editores da Amazon, que enviaram à sra. Saville um e-mail oferecendo a republicação do livro. Ele foi reeditado, ganhou uma nova capa e um novo título: Unravelling Anne. Será publicado no mês que vem.

A sra. Saville não recebeu nenhum dinheiro adiantado, como aconteceria se alguma editora tradicional tivesse escolhido seu livro de memórias. Em resumo, a Amazon tornou-se sua sócia.

“Estou presumindo que eles queiram ganhar um bom dinheiro com o livro, o que me encoraja”, disse a senhora Saville, que negociou seu contrato sem o intermédio de um agente.

Seu contrato tem uma cláusula que a proíbe de discutir os detalhes, o que não é tradicional nos livros. Os planos de promoção do livro também são sigilosos.

Será que a Amazon pode secretamente criar seus próprios bestsellers? The Hangman Daughter foi um sucesso em e-book. A Amazon comprou os direitos do romance histórico e um autor estreante, Oliver Pötzsch, e o traduziu do alemão. Já vendeu mais de 250 mil exemplares digitais.

“O mais importante e fascinante a respeito do programa de publicação da Amazon é que podem surgir fenômenos como esse”, disse Bruce Nichols da Houghton Mifflin Harcourt (grande grupo editorial), que republicou o romance em agosto.

A sra. Saville não mais pensa em uma carreira com uma editora tradicional. “Elas já tiveram sua chance”, disse. Ela agora está escrevendo um romance. “Espero que a Amazon o considere maravilhoso e que sejamos felizes para sempre no mundo editorial”, disse.

 

Editoras cedem poder a escritores

 

[Algumas editoras legacy têm se dado conta de que o digital está nivelando as ferramentas de publicação, e que publicar e comercializar livros não são mais seus privilégios. Algumas estão agindo, antes que seja tarde demais.]

 

Novo serviço para autores que querem autopublicar e-books

Julie Brosman

New York Times

 

O grupo editorial Perseus anunciou um serviço de distribuição e marketing que permitirá a escritores autopublicar seus próprios e-books.

O novo serviço dará aos autores uma opção entre os outros serviços de autopublicação e um reparte considerável da receita, que é incomum para a indústria: 70% para o autor e 30% para o distribuidor. Os editores tradicionais geralmente repassam aos autores royalties de cerca de 25% no caso de e-books.

O serviço desponta quando autores estão procurando cada vez mais maneiras de contornar o modelo de publicação tradicional, tomando partido das infinitas prateleiras do mundo do e-book e lançando eles mesmos suas obras. Especialmente no caso de reviver livros fora de estoque cujos direitos reverteram ao autor.

[…]

A nova unidade da Perseus, chamada de Argo Navis Author Services, estará disponível somente para escritores que sejam representados por uma agência que tenha assinado um acordo com a Perseus. David Steinberger, o presidente chefe executivo do Grupo Editorial Perseus, disse que a companhia fez um acordo com uma grande agência literária, a Janklow & Nesbit Associates, que tem, entre seus representados, Ann Beattie, Anne Rice e Diane Johnson. A Curtis Brown, Ltd., que representa Karen Armstrong e Jim Collins, também está perto de assinar um acordo para disponibilizar a Argo Navis para seus autores. A Perseus está em entendimentos com mais de uma dúzia de outras agências.

“Fundamentalmente, tornou-se nossa preocupação quando ouvimos, de autores e agentes, que eles estariam procurando alternativas”, disse Mr. Steinberger. “Ouvimos falar de autores que talvez tenham livros que nunca foram publicados, porque não se encaixavam no que suas editoras estavam procurando”.

Ele enfatizou que, ainda que Argo Navis provesse distribuição e serviços de marketing, o escritor faria a função do editor [publisher]. Mesmo que os autores ganhem uma fatia muito maior da receita nesse arranjo, eles receberão menos serviços e apoio financeiro, que geralmente são fornecidos pelas editoras sob contratos mais convencionais.

Em um esforço para solucionar o problema de como ajudar os leitores a descobrir os e-books sem a contrapartida dos livros impressos nas bancadas das livrarias, a Argo Navis fornecerá serviços básicos de marketing, como inserir as páginas do produto nos sites das livrarias. Também disponibilizará serviços mais completos de marketing, mediante uma taxa.

Os e-books serão distribuídos a pontos de venda como a Amazon, a BN.com, a Google, a Kobo, a Sony e a Apple.

Jack W. Perry, um consultor em publicação, disse que o serviço pode atrair aqueles escritores que querem seus e-books publicados com vasta distribuição.

“Muitas vezes, quando as pessoas trabalham seus próprios e-books, têm que fazer um bocado de coisas”, disse. “A Perseus está tentando tirar esse fardo deles”.

Nenhum escritor assinou contrato ainda, disse Mr. Steinberger.

Tim Knowlton, o executivo chefe da Curtis Brown, disse que o serviço era uma opção atraente para autores cujos livros ficaram fora de catálogo ou para livros para os quais os autores retenham os direitos digitais.

“A possibilidade de selecionar quais livros um escritor ou um herdeiro gostaria de colocar para imprimir, e assim fazê-lo de modo relativamente barato, é muito atraente”, disse Mr. Knowton. “Para qualquer livro que tenha potencial para vendas significativas, esta será uma boa oportunidade a explorar”.

 

 

Vídeo: Sérgio Rodrigues (parte 2/2)

 

A segunda e última parte da participação do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, colunista do Todoprosa, no Fórum Autor 2.0, que ocorreu no Parque Lage, no dia 3 de Setembro de 2011.
A primeira parte pode ser assistida aqui.
Sérgio trata, entre outras coisas, da relação do escritor com os dispositivos digitais, a interação, os limites da literatura e as novas formas de expressão do texto.

Vídeo: “Interação ou Interrupção”, Sérgio Rodrigues (parte 1/2)

 

A primeira parte da participação do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, colunista do Todoprosa, no Fórum Autor 2.0, que ocorreu no Parque Lage, no dia 3 de Setembro de 2011.
A segunda parte pode ser assistida aqui.
Sérgio trata, entre outras coisas, da relação do escritor com os dispositivos digitais, a interação, os limites da literatura e as novas formas de expressão do texto.

Ludditas da era digital?

 

Quando a revolução industrial estava no berço, eclodiu o movimento dos Ludditas, operários que sabotavam as máquinas — “porque elas iriam tirar o trabalho dos homens”. Em 1811, um trabalhador médio (às vezes, crianças de 8 anos) cumpria 12 horas por dia de trabalho repetitivo, de segunda a sábado, por alguns shillings, sem previdência social ou o que chamamos de “direitos trabalhistas”. E ficavam horrorizados ante a perspectiva de “perder” seu modo de vida.

“Talvez não pareça isso para alguns, mas escrever livros é um trabalho real. Esse grupo de universidades norte-americanas não tem a autoridade para decidir se, quando ou como os autores devem perder seus direitos”. Frase de Angelo Loukakis, representando um grupo de autores australianos. Eles e seus colegas do Canadá e dos Estados Unidos — já que não podem sabotar a gigantesca máquina sem engrenagens do Google — resolveram processar as universidades que ousarem disponibilizar textos em bibliotecas virtuais. Não querem que seus livros sejam “emprestados” via elétrons. (Nada foi dito contra as bibliotecas físicas, no que se conclui que os autores querem ao menos a satisfação de obrigar o leitor a sair de casa).

As universidades e o Google argumentam que os livros disponibilizados são devidamente licenciados (pelas editoras a quem os próprios autores passaram os direitos quando assinaram o copyright) ou estão em domínio público. A porca torce o rabo é na questão dos “livros órfãos”, aqueles títulos cuja autoria não pode ser identificada (talvez porque “filho feio não tem pai”), e que permanece sem solução legal. Ainda que esses correspondam aos livros menos interessantes e consultados, os autores querelantes enxergam nisso uma brecha para permitir futuros abusos.

Os ludditas anti-Revolução Industrial quebraram alguns teares mecânicos, explodiram algumas caldeiras. Mas foram derrotados pelos novos tempos — e seus bisnetos têm direito a trabalhar 8 horas por dia, se quiserem.

Os autores querelantes anti-Revolução Digital talvez tenham razão. Seus bisnetos poderão dizer.

Leia mais aqui.

 

 

Turow: “A pirataria de e-books pode destruir o mundo editorial”

 

Bol online

 

O autor e advogado norte-americano Scott Turow, 52, best-seller mundial por thrillers jurídicos como “Acima de Qualquer Suspeita” ­–que originou o filme homônimo de 1990, dirigido por Alan J. Pakula e estrelado por Harrison Ford — disse hoje em sabatina da Folha ver com preocupação a forma como os livros digitais vêm sendo pirateados.

“É preciso ter uma ação contra isso, ou eles vão destruir a base financeira do mundo editorial. E não são os autores best-seller quem mais tem a perder com isso, e sim os que estão só começando”, afirmou o escritor na entrevista, conduzida pela editora da Ilustrada, Fernanda Mena, no Teatro Folha.

A conversa teve como entrevistadores também Josélia Aguiar, colunista da Folha, Ives Gandra, professor emérito da Universidade Mackenzie, e Diego Assis, chefe de reportagem do UOL Entretenimento, e foi exibida ao vivo no UOL.

O autor tratou da discussão a respeito dos livros digitais ao ser questionado por Assis sobre artigo que publicou no “New York Times” criticando leis de flexibilização dos direitos autorais propostas pela organização sem fins lucrativos Creative Commons. “Concordo com [Lawrence] Lessig [fundador da organização] em algumas coisas. Não acho que direitos autorais deveriam ser estendidos do jeito que vêm sendo nos EUA no que diz respeito a estúdios de cinema, por exemplo.”

Turow, que participa neste domingo (11) na Bienal do Livro Rio, em mesa às 15h30 com Marc Levy, veio ao Brasil também para lançar o thriller “O Inocente”, sequência de “Acima de Qualquer Suspeita” – romance que o norte-americano sempre disse que não teria continuação. “Uma coisa que aprendi desta experiência é que você nunca deve acreditar em um escritor quando ele diz que nunca escreverá sobre determinado assunto.”

Primeiro fórum: 3 de setembro

O digital está libertando os livros das restrições físicas (estoque, distribuição, custos gráficos, divulgação) e liberando o acesso à edição e publicação, além de redefinir o conceito de autoria individual. Os papéis da cadeia do livro — do escritor ao leitor, passando por agentes, editores, livrarias, bibliotecas — podem ser reconfigurados. Autor 2.0 é um fórum para explorar os impactos que o meio digital traz ao livro — com foco nas oportunidades e riscos  para a vida criativa  e econômica do personagem fundamental da cadeia do livro — o escritor. Ao investigar os novos recursos e estudar suas aplicações na cadeia do livro, os autores mapearão as novas formas de se escrever e ler.  
O primeiro encontro acontecerá no sábado, 3 de setembro, a partir das 16h, no Salão Nobre da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro. Escritores, editores e jornalistas vão conversar com o público sobre temas urgentes, como

 

Publicação de narrativas em mídias sociais e suportes alternativos. Quais das experiências terão viabilidade econômica e serão acolhidos pelos leitores?

Narrativas colaborativas, não lineares, wikiliteratura e transmidia. A obra cultural unificada — com texto, imagem, audio, música, links — é convergência ou redundância?

Publicação, autopublicação e distribuição em eBook nos canais aterritoriais, como Apple e Amazon. — Copyright, Creative Commons, a nova economia do livro digital e as novas formas de remuneração do trabalho do escritor.

A livre troca de informações, a marginalia digital colaborativa e a dissolução da autoria individual na internet. Pirataria, plágio, remix e falsas atribuições.

Qual o novo papel do editor e como será a triagem do que vale a pena ser lido com o fim da barreira econômica para a publicação e autopublicação.

 

Para esse primeiro encontro, foi formado um painel de escritores, editores e profissionais do livro de perfis diversos, para que as questões sejam por mais pontos de vista e que as ideias surgim a partir do embate de opiniões. São eles

Cristiane Costa jornalista, escritora, editora e professora, investiga as novas formas de expressão textual com os recursos digitais: as narrativas expandidas.

Marcelino Freire escritor, idealizador da Balada Literária, evento literário e cultural em São Paulo, editor do coletivo Edith. Recebeu o Jabuti por Contos negreiros.

Sérgio Rodrigues jornalista, escritor, editor do site NoMínimo e colunista do TodoProsa da Veja online especializado em literatura, vencedor do Prêmio de Cultura do Estado do Rio em 2011.

Ondjaki escritor angolano publicado em 14 idiomas, vencedor do Jabuti por AvóDezanove e o segredo do soviético.

Carlo Carrenho economista, editor, fundador do portal Publishnews, que há dez anos registra as mudanças no mercado editorial e diretor da Singular, braço de publicação digital (em eBook e impressão sob demanda) do grupo Ediouro.

Simone Campos jornalista, autora de livros publicados em formato tradicional, digital e híbrido. Recebeu a bolsa de criação literária da Petrobras para criação de Owned, livro publicado em papel, online e no formato de jogo.

C. S. Soares escritor multiplataforma, desenvolvedor de software, e-publisher, colunista iMasters, editor do PontoLit, sobre literatura e autopublicação.

 

O debate ficará registrado no site www.autor20.com, que será o fórum permanente para discussão da relação dos escritores com o meio digital, reunindo material pertinente e fomentando a discussão, com o objetivo de compreender e mapear as novas formas de se escrever e ler.

‘O fim do livro’ já cansou. Que tal ‘o fim do escritor’?

 

Sérgio Rodrigues

Todoprosa

O escritor escocês Ewan Morrison provocou um barulho considerável no Festival de Livros de Edimburgo, há poucos dias, com uma palestra (transcrição resumida do “Guardian”, em inglês) tão fundamentada quanto apocalíptica em que, além de dar razão a quem prevê para o futuro próximo o fim do livro de papel (para o qual estima uma sobrevida de apenas uma geração), pinta um cenário em que o próprio ofício de escritor como o conhecemos deixará de existir:

 

Os e-books, no futuro, serão escritos por principiantes, por equipes, por entusiastas de suas respectivas especialidades e por autores já estabelecidos na era do livro de papel. A revolução digital não emancipará os escritoires nem abrirá uma nova era de criatividade: vai levá-los a ofertar seu trabalho em troca de muito pouco ou de nada. A literatura, como profissão, terá deixado de existir.

A futurologia é uma disciplina traiçoeira, mas Morrison não é propriamente um maluco que sobe no caixote para pregar o fim do mundo. Apresenta-se munido de todas aquelas tendências estatísticas já bastante conhecidas que apontam para a progressiva perda de valor do conteúdo na era digital (rumo à gratuidade absoluta?) e para o crescimento aparentemente irresistível da pirataria. Registra a decadência acelerada do sistema de adiantamentos com o qual a indústria editorial nutriu talentos autorais por décadas. Recorre também a teorias como a da “cauda longa”, lançada por Chris Anderson, editor da revista “Wired”. E por fim, de forma um tanto surpreendente, aponta o próprio sonho de independência que a revolução digital provoca no escritor, ao lhe dar a impressão de que pode prescindir do editor “atravessador”, como aquilo que vai acelerar a morte de ambos.

Cenários extremos como o de Morrison podem ser instigantes. Se não soa muito plausível sua previsão do trabalho de criação literária como uma fábrica chinesa ou coreana, superlotada de operários que se matam em troca de cama e comida, os dados que mobiliza certamente apontam para transformações dramáticas no modo de produção e veiculação da escrita. Transformações para as quais, paradoxalmente, um país como o Brasil, em que a profissionalização do escritor ainda não chegou a amadurecer, pode estar mais preparado do que muitos. “Ofertar seu trabalho por muito pouco ou nada” não é uma ideia que a maioria dos escribas canarinhos já tenha tido o privilégio de descartar como aviltante.

O futuro da publicação não se parecerá em nada com o atual.

 

Ilana Fox

FutureBook

 

Na revista Wired deste mês, Alain De Botton escreve que “o empreendedor pega tremores de insatisfação e anseio, e os transforma em interesses comerciais.” De Botton estava escrevendo sobre a Apple, mas seu princípio sobre o empreendedorismo pode ser aplicado à maioria das coisas. Acho perfeitamente adequado levar esse conceito a nossa amada indústria do livro.

Na posição de escritora — mas também como alguém que já trabalhar com o digital há mais de dez anos (jornais nacionais e principalmente no varejo) — sou fascinada pelas mudanças que acontecem na indústria do livro no momento. Aplaudo os esforços da Unbound para tentar criar um novo modelo de publicação, fico irritada com Amanda Hocking por ela ter atraído a geração de leitores do Crepúsculo com seus romances autopublicados que renderam-lhe uma fortuna, e me pergunto se os editores de livros tradicionais realmente são tão descartáveis como muitas pessoas (JK Rowling, eu estou olhando para você) parecem achar. Mas, acima de tudo, eu fico assistindo conferências esperando ouvir sobre a próxima grande coisa.

E espero. E continuo esperando.

O aplicativo Waste Land foi lançado muito recentemente, e como todo mundo, eu o amei. Eu o considero elegantemente feito — é bonito, tátil e abrangente — porém discordo de Bryan Appleyard no Times da semana passada. Eu não acho que ele seja um “ponto de virada para a literatura digital”. Eu acho que é apenas um app: um aplicativo lindo, absolutamente, mas apenas um app, no entanto.

O que eu estou esperando — e você provavelmente também está — é a virada de jogo que venha de dentro da indústria e não dos movimentos da Apple ou da Amazon. Estou esperando por esse momento maravilhoso onde, de repente, alguém surge com algo tão embasbacante que nós saberemos de pronto que a indústria terá mudado para sempre. Há murmúrios de idéias, há conversas que geram inovação, porém, enquanto a indústria do livro não chega a um entendimento com o cenário digital, parece que estamos em um daqueles primeiros encontros de adolescentes — desesperados para fazer o primeiro movimento libidinoso, mas incapazes de fazê-lo ou porque não se sabe bem o que se está fazendo, ou aterrorizados pela perspectiva da rejeição.

Ao contrário dos jornais (que sempre existiram em alguma forma, no papel ou não, porque sempre haverá novidades), ou das roupas (porque, excetuando aqueles em colônias nudistas, todos precisamos nos vestir), os livros podem considerados dispensáveis. Nós não precisamos deles para sobreviver, para ter uma conversa, para aprender. No entanto, paralelamente a este descontentamento, há também desejo — podemos até não precisar de livros, mas os queremos. E se nós os queremos temos que inovar para que o mercado de desejo por livros permanece intacto.

Nos meus instantes mais espertos eu me pergunto por que ainda não chegaram a uma solução, e eu tento colocar minha cabeça para pensar nisso. Parece-me que ficamos atolados nos detalhe, tão preocupados com modelos de precificação e de direitos digitais, que não estamos pensando grande. Não estamos pensando como empreendedores, como start-ups, não estamos achando que tudo é possível. Acima de tudo, precisamos entender que o futuro da indústria não vai se parecer em nada com o atual. Não devemos deixar que nossa tradição nos detenha.

Eu não sei qual será o futuro da publicação, é claro. Sou apenas uma escritora. No entanto, o que eu sei é que, para criar a inovação, precisamos ignorar tudo o que fizemos antes, e precisamos agir de forma empreendedora. Precisamos criar o desejo por livros mais uma vez nos leitores, e precisamos criar possibilidades que talvez pareçam embasbacantes agora, mas que se tornarão padrão no futuro.

Atwood: o autor na torta editorial

 

A escritora Margaret Atwood apresentou na conferência Tools of Change, em 2011, sua esclarecedora e engraçada visão do que seja a cadeia produtiva do livro, e como as novas ferramentas digitais podem redefinir os papéis dos agentes.

 

Esse não é o tipo de coisa com que estou acostumada a fazer, e me disseram que é para eu me dirigir ao centro do palco, em vez de me esgueirar aqui atrás do pódio. Então é isso que eu vou fazer. Olhem só.

Eu nunca tinha feito isso antes (risos).

Não costumo fazer palestras em conferências tecnológicas, porque não sou uma pessoa tecnológica, eu sou uma escritora e nós temos uma visão um tanto diferente. Eu amo o entusiasmo por todas essas coisas novas que me cercaram nessa conferência. Perdoem-me por não ser tão empolgada quanto uns e outros.

Essa é a torta editorial. A torta editorial é todo o negócio que cerca os livros. Todos fazemos parte disso, sejam as pessoas tecnológicas idealistas, sejam os escrivinhadores, como eu. Bem, é sobre isso que estamos todos falando. A indústria editorial está morrendo? E, se estiver, estão os autores morrendo, também?

 

[QUADRO]

— Alguns dizem que as editoras tradicionais, as livrarias, e até os livros, estão morrendo.

— Se for verdade isso, será que os autores vão morrer também?

— Se a internet é o futuro e na internet tudo é potencialmente de graça,

— Então quem pagará pelos queijo-quentes com os quais os autores, como se sabe, subsistem.

 

Para colocar em perspectiva, somente dez por cento dos autores ganham a vida escrevendo o tempo todo. E já que sou uma dessas pessoas, posso dizer que é precsiso trabalhar duro e muito. Então essa é a questão com que nos deparamos:

 

Temos uma certa dose de pânico e, minha primeira mensagem é “Não entre em pânico”. Porque se você entrar em pânico e correr, eles vão achar que você é uma presa. Essa é uma mensagem para meus colegas escritores: não entrem em pânico. Ainda.

 

[QUADRO]

— Primeiro, alguns ditados do norte… 1. Não entre em pânico

 

Então, o que é a publicação, na verdade? Nós aqui falamos de infraestrutura e todo esse papo, mas o que é publicar? É tornar alguma coisa pública.

 

[QUADRO]

Publicar é tronar alguma coisa pública

 

E é só o modo de transmitir alguma coisa de um cérebro para outro cérebro. Não sei se vocês se lembram do filme “Jovem Frankenstein”. Havia uma transferência de cérebro, com o uso de um tubo. Bem, esse era um método de publicação. Um livro é outro método de levar uma coisa de um cérebro para outro cérebro. Não tem necessariamente que ser um livro.

 

[QUADRO]

Ferramentas de publicação

Gritar, cantar, tabuletas de argila, rolos, livros códex, filmes e tevê, grafitti, cartas, outro e A INTERNET.

 

Tem havido um bocado de ferramentas de publicação. Uma delas foi gritar. E depois vieram outras: cantar. Tabuletas de argila, problemas: elas derretem na chuva, rolos, livros códex, o livro gutemberguiano. […]