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Disputando a hegemonia dos e-books, empresas miram os autores

Publishnews, 11 de janeiro de 2012

O ano de 2012 começou com repetidos rumores (aquiaqui e aqui, e aqui, por exemplo) sobre a possível entrada da Apple no segmento de autopublicação. Segundo os pomólogos de plantão, ainda neste mês será revelado que a interface de leitura da Apple, o desenxabido iBooks, ganhará recursos de publicação, voltados tanto para as editoras quanto diretamente para escritores.
Como muitos dos rumores, esse parece surgido menos da realidade do que da vontade de acreditar. Essa, porém, é uma hipótese muito bem endossada pela observação e pela lógica — de mercado.
Se o século 20 foi marcado pelo Grande Jogo — a corrida entre as nações para controlar o suprimento de petróleo —, neste século a disputa parece ser pela hegemonia no comércio de bens culturais digitais. As potências agora chamam-se Apple e Amazon (com uma titubeante Google correndo por fora). A música é território conquistado pela Apple e seu iTunes, porém, no segmento dos livros digitais, a empresa de Cupertino frequenta um lugar que não lhe é muito familiar: a retaguarda. A Apple fica comquatro de cada cem e-books vendido no mundo, contra 56 de sua rival de Seattle.
No front do hardware, a Amazon deu a largada com o e-leitor Kindle (2007), mas seu predomínio foi deletado pela tabuleta da Apple, o iPad (2010). A Amazon reagiu com o Fire, um tablet para as massas. Calcula-se que a próxima jogada da Apple envolveria uma tablet que abafasse o Fire, em termos de preço e recursos.
Também em termos de software a Apple ficou para trás. Seu iBook de estantes de “madeira” não tem aaffordance da interface da Kobo ou a ubiquidade dos kindlebooks. É a evidente defasagem que autoriza os especuladores a acreditar que a Apple vem, enfim, com novidades dignas de Santo Estêvão Jobs.
Já a “interface para escritores” seria a cristalização de uma tendência facilmente observável. Os principais vendedores de livros já montaram seus canais para selfpublishing. A Barnes and Noble tem oPubit e a Amazon acenou com seis milhões de dólares anuais para manter “autoautores” no seu cercadinho, o que pode ser encarado como um ataque preventivo. O fato é que hoje basta um ISBN e alguns cliques no site da Kindle Direct Publishing para que sua tese de mestrado ou sua coleção de sonetos integre o maior catálogo de livros do mundo. Já quem tentar o mesmo na Apple vai encarar uma burocracia intimidadora ou tomará o atalho dos “agregadores”, empresas que levam os editores e escritores à terra prometida da Apple em troca de uma comissão ou taxa.
Um desses agregadores — e líder da “publicação indie” — desqualifica os boatos e afirma que a Apple não vai se meter com autopublicação. Segundo Mark Coker, da Smashwords, a Apple é extremamente ciosa da qualidade do que vende, e teme que, quando a porta estiver aberta, coisas indesejadas possam entrar. (Como esse calhamaço escrito em MAIÚSCULAS, talvez o mais grotesco livro no catálogo da Amazon).
Boato ou não, o fato é que os über vendedores de livros parecem cada vez menos encantados com as editoras e cada vez mais enamorados dos autores. Sejam escritores mais que consagrados, sejam poetastros de gaveta, os autores nunca foram tão cortejados nem tiveram à disposição tantos meios para colocarem seu livro à venda instantaneamente, em escala mundial.
É evidente que esse câmbio de poder — que as megavarejistas digitais de certa forma retiram das editoras e concedem aos escritores — não acontecerá sem traumas. Todos os jogadores (escritores, editores, distribuidores, livrarias) terão que redefinir, a base da conversa ou dos pontapés, seus papéis, seus poderes e direitos.
Por conta do Grande Jogo do petróleo do século 20, o mundo continua em conflito. Como disse Kipling, “quando todos estiverem mortos, o Jogo terá chegado ao fim. Não antes disso”. Vamos esperar que o Grande Jogo digital do século 21 traga mais vencedores — e menos baixas.

Editora para quê? Só precisamos de autores, leitores… e da Amazon.

 

Amazon assina com escritores, tirando as editoras da jogada

 

New York Times


A Amazon ensinou aos leitores que eles não precisam de livrarias. Agora está encorajando os escritores a descartar seus editores. 

A Amazon está para publicar 122 livros em diversos gêneros, tanto no formato físico quanto em e-book. É uma aceleração assombrosa do programa incipiente de publicação que irá colocar a Amazon de frente contra as empresas que são também seus mais proeminentes fornecedores.

Ela criou um selo, dirigido pelo veterano editor, Laurence Kirshbaum, para amealhar grandes nomes da ficção e da não ficção. Assinou seu primeiro contrato com o escritor de autoajuda Tim Ferris. Na última semana, anunciou as memórias da atriz e diretora Penny Marshall, pelas quais pagou U$ 800 mil, segundo uma pessoa diretamente envolvida com a negociação.

As editoras dizem que a Amazon está agressivamente seduzindo alguns de seus escritores mais importantes. E a companhia está abocanhando os serviços que as editoras, críticos e agentes costumavam prestar.

Vários editores de grande porte declinaram a dar opinião sobre as tentativas da Amazon. “As editoras estão aterrorizadas, e não sabem o que fazer”, disse Dennis Loy  Johson, da Melville House, que é conhecido por dizer o que pensa. 

“Todos têm medo da Amazon”, disse Richard Curtis, um agente de longa carreira, que é também editor de e-books. “Se você é uma livraria, a Amazon têm sido seu concorrente há um bom tempo. Se você é uma editora, um dia vai acordar e a Amazon estará concorrendo com você, também. E, se você é um agente, a Amazon pode estar roubando seu almoço porque está oferecendo aos autores a oportunidade de publicar diretamente e tirá-lo da jogada”.

“É a velha estratégia: dividir para conquistar”, disse Mr. Curtis.

Os executivos da Amazon, entrevistados no quartel-general da companhia, declinaram em dizer quantos editores a empresa contratou, ou quantos livros eles têm sob contrato. Porém negaram que a Amazon seja assim tão poderosa, e disseram que as editoras estão apaixonadas por sua própria decadência.

“É sempre um fim do mundo”, disse Russel Grandinetti, um dos mais altos executivos da Amazon. “As pessoas marcam no relógio”.

Ele destacou, no entanto, que a paisagem está, de alguma forma, se alterando desde que Gutenberg inventou o livro moderno há cerca de 600 anos. “As únicas pessoas realmente necessárias no processo de publicação são o escritor e o leitor”, disse. “Para todos que estiverem entre esses dois haverá riscos e oportunidades”. 

A Amazon começou a dar a todos os autores acesso direto ao respeitado relatório de vendas Bookscan, da Nielsen, que registra quantos livros físicos eles estão vendendo em mercados específicos, como Milwaukee ou Nova Orleãs. Está introduzindo no mercado um tipo de comunicação direta entre os autores e seus fãs, o que só costumava acontecer em tours promocionais. Fez de um obscuro romance histórico alemão um bestseller, sem que nenhum avaliador profissional tivesse opinado.

As editoras viram de relance um futuro no qual, temem, não haverá lugar para elas quando, no mês passado, a Amazon apresentou o Kindle Fire, um tablet para livros e outras mídias vendidas pela Amazon. Jeffrey P. Bezos, o CEO da empresa, referiu-se várias vezes ao Kindle como “um serviço de ponta a ponta”, concebendo um mundo no qual a Amazon desenvolve, promove e entrega o produto.

Para ter uma ideia de quanto as editoras estão perturbadas pela entrada da Amazon em seu negócio, basta olhar para Kiana Davenport, uma escritora havaiana cuja carreira saiu abruptamente dos trilhos no mês passado.

Em 2010, a senhora Davenport assinou contrato com a Riverhead, uma divisão da Penguin, para o livro The Chinese Soldier’s Daughter, uma história de amor passada na Guerra Civil. Ela recebeu adiantamento de U$ 20 mil pelo livro, que, esperava-se, seria lançado em agosto passado.

Se há alguma coisa que os escritores sabem que fazer, hoje em dia, é “correr atrás”. Assim, a senhora Davenport tirou da prateleira uma coletânia premiada de contos que ela havia escrito há 20 anos, a compilou em um e-book chamado de Cannibal Nights e o disponibilizou na Amazon.

Quanto a Penguin descobriu, ficou “furiosa”, e a acusou de quebrar sua promessa contratual de evitar concorrer consigo mesma. Exigiu que Cannibal Nights fosse excluído da Amazon e que todas as menções a esse e-book fossem removidos da internet.

A sra. Davenport recusou-se e, assim, a Penguin cancelou seu romance e ameaçou processar a escritora, se ela não devolver o adiantamento.

“Eles estão querendo deixar um exemplo: se você se autopublica e distribui com a Amazon, isso é por sua conta e risco”, disse Jan Constantine, uma advogada da liga dos escritores que representa a sra. Davenport.

A escritora sabe de que crime está sendo acusada: o de “dormir com o inimigo”.

Se alguns escritores estão correndo danos colaterais, outros estão se beneficiando desse novo arranjo. Laurel Saville estava de fora da jogada no sistema antigo, quando as editoras de New York eram os gatekeepers (os “guardas dos portões”). “Eu recebia um bocado de elogios, mas nada de fechar contrato”, disse a sra. Saville, 48 anos, uma autora de livros de negócios que mora em Little Falls, Nova York.

Há dois anos ela decidiu pagar pela publicação de seu livro de memórias sobre a decadência de sua mãe, de rainha da beleza californiana a moradora de rua e vítima de assassinato. Gastou cerca de U$ 2.200, e conseguiu vendas de 600 exemplares. Nada horrível, mas longe de impressionar.

No último outono, a senhora Saville pagou U$ 100 para ser incluída em uma lista da Publishers’ Weekly de escritores autopublicados. A revista acabou fazendo uma resenha de seu livro de memórias, com uma avaliação morna que, mesmo assim, chamou a atenção dos editores da Amazon, que enviaram à sra. Saville um e-mail oferecendo a republicação do livro. Ele foi reeditado, ganhou uma nova capa e um novo título: Unravelling Anne. Será publicado no mês que vem.

A sra. Saville não recebeu nenhum dinheiro adiantado, como aconteceria se alguma editora tradicional tivesse escolhido seu livro de memórias. Em resumo, a Amazon tornou-se sua sócia.

“Estou presumindo que eles queiram ganhar um bom dinheiro com o livro, o que me encoraja”, disse a senhora Saville, que negociou seu contrato sem o intermédio de um agente.

Seu contrato tem uma cláusula que a proíbe de discutir os detalhes, o que não é tradicional nos livros. Os planos de promoção do livro também são sigilosos.

Será que a Amazon pode secretamente criar seus próprios bestsellers? The Hangman Daughter foi um sucesso em e-book. A Amazon comprou os direitos do romance histórico e um autor estreante, Oliver Pötzsch, e o traduziu do alemão. Já vendeu mais de 250 mil exemplares digitais.

“O mais importante e fascinante a respeito do programa de publicação da Amazon é que podem surgir fenômenos como esse”, disse Bruce Nichols da Houghton Mifflin Harcourt (grande grupo editorial), que republicou o romance em agosto.

A sra. Saville não mais pensa em uma carreira com uma editora tradicional. “Elas já tiveram sua chance”, disse. Ela agora está escrevendo um romance. “Espero que a Amazon o considere maravilhoso e que sejamos felizes para sempre no mundo editorial”, disse.

 

Vídeo: Carlo Carrenho, “Prateleiras infinitas”

 

O economista, editor e jornalista Carlo Carrenho (Singular, Publishnews) fala sobre o impacto das novas tecnologias de impressão no mercado de livros. Conversa registrada no Primeiro Encontro do Fórum Autor 2.0, ocorrido no dia 3 de setembro de 2011, no Parque Lage. Uma realização Ímã Editorial

Você não terá mais livros. E lerá muito mais.

 

JULIO SILVEIRA

Se você é proprietário de uma biblioteca, montada laboriosamente e exibida com orgulho na sala de estar, já deve ter ouvido de alguma visita algo como “mas para que é que você guarda o livro depois que leu?” ou “se você não vai reler, porque é que fica ocupando tanto espaço com livro?”.

Você pode até se chocar com esses filisteus, mas tem que reconhecer que o raciocínio — deixando de lado o fator afetivo — faz sentido. Em se tratando de pessoas que gostam do livro, há as que gostam do objeto, há as que gostam do conteúdo.

Dentro dessa lógica, duas iniciativas começam a despontar. Uma é da gigante Amazon, e ainda não tem nome ou data de lançamento. A ideia é que, por uma taxa anual, o usuário de um Kindle possa ler qualquer livro do acervo amazônico, no sistema vai-e-vem. As editoras, cada vez mais acuadas, já começaram a estrilar. A resposta da Amazon é que o serviço nada mais é que uma versão 2.0 das bibliotecas — com uma melhor remuneração para as editoras.

Faturar pouco de muitos é a premissa da “Nuvem de livros“, uma empreitada da Gol Editora (sim, a voadora das barrinhas de cereal que singrar outras nuvens). O escritor Antônio Torres, contratado como “curador” do projeto, justifica: “O enfoque é o mesmo do de uma biblioteca, só que virtual”. “Nós não vamos vender livros; as pessoas leem e depois devolvem para a nuvem. É um projeto que tem uma preocupação educacional, que pode atingir escolas, universidades e o público em geral”, conta.

Essa “preocupação educacional” traduz-se à receita estimada de R$ 1,00 por cada aluno da escola pública do país ao mês. Estamos falando de quase 9 milhões. Deve sobrar um bom naco para as editoras, mas, por enquanto, o acervo conta basicamente com os títulos do grupo Ediouro (Nova Fronteira, Agir, Thomas Nelson etc).

Alguém já disse que a música será consumida da mesma forma que dispomos do gás e da eletricidade: por uma conta mensal. Talvez os livros (ou os textos, melhor dizendo) sigam o mesmo caminho e venham por “canos digitais” das editoras até nossa cabeceira. Não teremos mais a propriedade de um volume, apenas a posse (transitória) de um romance, por exemplo. E dessa forma, pelo menos, aquela pilha, ao lado da cama, de livros comprados e não lidos ainda, deixará de seu um embaraço.

 

Kindle @author traz o autor de volta aos leitores

 

Um dos clichês dos cursos de literatura — “Para quem escreve o autor?” — pode deixar de ser uma pergunta estritamente retórica. O leitor, essa figura abstrata lá na outra ponta da cadeia do livro, pode ganhar nome e rosto e tornar-se amigo (no sentido Facebook da palavra) do escritor.
A distância ainda é imensa, mas a Amazon começou a apresentar o leitor a seu autor e vice-versa.  O Kindle, desde o último domingo (30 de agosto), permite que os leitores selecionem um trecho qualquer de um e-book e se dirijam ao escritor — tecendo um comentário, tentando esclarecer uma dúvida, rasgando um elogio. É o recurso @author, que está em fase de testes, restrita a 15 escritores.

A lista não é empolgante. Não espere que Coetzee, que não aceitou ser entrevistado na Flip, vá se dispor a esclarecer quem é o pai do filho de Lucy, em Desonra. Dentre os bois de piranha do projeto @author, lançados à curiosidade dos leitores estão o escritor de suspense-cristão (!) Ted Dekker, o filho desnaturado porém rico Robert Kiyosaki e o indie bestseller no Kindle John Locke. Nem tudo é desalento: Steve Johnson, do instigante e recém lançado De onde vêm as boas ideias está às ordens para o leitor desinibido.

Boatos no twitter dão conta de que o serviço, mal começou e já pode ser abatido. Como era de se esperar, a incidência de trolling é avassaladora, com muita gente debochando, ofendendo e ameaçando seu escritor. O que era para acabar as barreiras pode tornar-se mais um muro, de pichações.

E você, o que diria ao autor do livro que está lendo?

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