Posts Tagged ‘Indústria’

Editoras, cuidado: o eBook is not on the eTable.

 

Michael Shatzkin levantou uma lebre interessante em um recente post de seu site: será que as editoras (de livros impressos) conseguirão manter a primazia na publicação de livros (eletrônicos)?

Muito já se escreveu sobre o impacto da autopublicação “roubando” o papel das editoras tradicionais — com as opiniões variando entre a exaltação entusiasmada à liberdade de publicar, de um lado, e o franco desprezo, do outro (“um ebook autopublicado não vale nem o papel no qual está impresso”, disse um editor, parodiando a patuscada de Samuel Goldwin). Shatzkin, no entanto, mostra que há um “concorrente” muito melhor preparado para ocupar o papel das editoras tradicionais: qualquer empresa que gere ou detenha conteúdo pode agora publicá-lo, digitalmente, sem a intermediação de uma editora.

As revistas, redes de televisão e sites estão se dando conta da realidade de que autopublicar ebooks é algo que elas podem fazer sem as complicações (ou sem ter que dividir a receita) de se trabalhar com uma editora. 

Assim, as editoras que quiserem manter-se indispensáveis em ambiente em que o produto predominante (ebook) requer pouco ou nenhum investimento em dinheiro e onde os canais de vendas serão poucos e de livre acesso (como a Amazon), terão que convencer empresas geradoras de conteúdo (vale o mesmo para autores), que a associação com suas marca ou selo trará benefícios que vão além do “prestígio”.

Veja aqui os comentários de Stella Dauer, e a longa e acalorada discussão no blog de Shatzkin.

Lenine e Bernardo Carvalho: autores, direitos e poderes.

 

No sumário edição de novembro da Revista Piauí estão em sequência uma matéria sobre o novo disco de Lenine em meio às tranformações do mercado fonográfico e um artigo do escritor Bernardo Carvalho sobre a situação do copyright nos tempos de Google. A proximidade dos artigos acaba provocando um diálogo entre eles, e destaca o contraste entre a atitude do compositor pernambucano-carioca e do romancista carioca-paulistano.

Sobre a função (econômica e social) do criador/autor, Bernardo Carvalho diagnostica decadência onde Lenine vê redenção. Ao mesmo tempo, o paralelo entre as indústrias fonográfica e editorial mostra que as apreensões daquela são déjà vu nesta.

Para Carvalho, a situação de conflito entre o direito de autor e as demandas da internet é “de fato e irreversível” e o copyright é cada vez mais “tradicional, restritivo e insustentável”. Porém isso não acontecerá sem esvaziar o papel do autor e da obra de arte, transformando o primeiro em um “negociante de direitos intelectuais segundo a lógica de uma empresa de mídia”, obrigado a “tornar-se cada vez mais público” e a segunda reduzida a um “serviço à comunidade”, por conta da impostura da “democracia”. O romancista, apesar de resignado, não hesita em delatar os culpados, todos lobos com cara de cordeiros. Um seria o Creative Commons — espécie de aliciador do direito autoral do indivíduo. Outro seria o Google, que “assumindo o papel de entidade suprema e legisladora […] sente-se no direito de digitalizar e oferecer gratuitamente tudo o que estiver publicado no mundo, sem a autorização dos autores”.

O suposto desprezo do Google pelos direitos dos autores é só um dos equívocos de Carvalho que acabam empanando o que seria uma argumentação tão clara e precisa como a prosa de livros como Mongólia e Nove noites. Ele incorre em um erro que, de tão difundido, soa como verdade — o copyright é um direito de quem? O Google julga-se no direito de tornar público somente aquilo que foi permitido pelo detentor do direito. E, ao contrário do que argumenta Carvalho, esse não é o autor. Estão no Google Books, acessíveis para pesquisa, somente aqueles livros cujos donos do copyright — as editoras — autorizaram.

Outro equívoco ocorre no primeiro parágrafo quando o romancista equivale “copyright” a “direito autorial”. Copyright — o direito de reprodução — não é direito autoral, e tampouco é um direito do autor. Copyright é um direito da editora (gravadora etc) do qual o autor abriu mão, cedeu, licenciou. Carvalho cita a Convenção de Berna (1886) como marco regular do direito do autor, porém ignora que foi justamente em Berna que o “droit d’auteur” que tinha Victor Hugo como campeão e que buscava proteger os autores individuais, foi solapado pelo “copyright”, uma demanda das empresas que comerciavam as obras que aqueles criavam. A Convenção estabeleceu direitos sobre a propriedade intelectual — basicamente definiu que empresas tem direito a explorar a dita obra.

O que aconteceu em Berna é descrito de modo singelo por Lenine:

“Lá no início parece que juntaram os donos das casas de música, o cara da editora e o inventor do gramofone. Fizeram uma reunião e dividiram tudo. No final, alguém perguntou: e o criador? E responderam: bota aí 5%! Eu acho que o criador nem estava na mesa.”

A matéria de Renato Terra sinaliza que talvez seja a hora do criador tomar um quinhão maior no resultado de suas criações.

“Lenine compõe as músicas, faz a produção, contrata instrumentistas, grava e negocia seus CDs com as gravadoras. Há pouco, o sistema dominante era o inverso: as gravadoras mantinham um plantel de artistas e, por contrato, arregimentavam os meios necessários”. Qual seria então o papel da gravadora hoje? Olivia Hime, da Biscoito Fino, já descobriu: “no novo formato, a gravadora tende a ser mais enxuta, virar parceira do artista”.

Voltando ao paralelo com a indústria editorial, Bernardo Carvalho conta com um excelente parceiro na pessoa (física e jurídica) de Luiz Schwarcz. A Companhia das Letras “arregimentou os meios” para que Carvalho pudesse amadurecer sua obra. Neste caso, não estamos falando de estúdios ou músicos, mas de diálogo criativo, apuro na produção e esmero no lançamento.

Bernardo Carvalho afirma que os novos tempos trouxeram uma mudança no conceito de obra. “O artista passou a ser proprietário da ideia”, lamenta. Pode-se encarar isso como uma maldição (se você estiver bem amparado pelo atual sistema) ou bênção (se você, de fora da festa, está disposto a tomar para si a tarefa de fazer valer, e render, sua criação). Ser proprietário de uma ideia pode significar autonomia para os empreendedores, ou uma “condenação à liberdade” para os introspectivos.


Control+Alt+Del

 

A recente conferência TOC (Tools of Change) em Frankfurt apresentou a habitual sequência de palestras em que se mostram possibilidades assombrosas do digital para a publicação e que suscitam dúvidas e a costumeira ansiedade nas editoras estabelecidas — como poderemos nos adaptar?

A palestra de Mitch Joel, canadense expert em marketing digital destacou-se ao partir de uma perspectiva diferente — dê um control+alt+del [“command+option+esc” para o povo Mac].  Não tente se adaptar; não tente trazer suas práticas do livro impresso ao mercado digital. Pense do zero. Queime seus navios. Nada será como antes. O consumidor de hoje é diferente do de ontem — literalmente.

 

 

Algumas ideias e provocações que valem o destaque:

“Pode parecer assustador ou radical… essa é uma oportunidade equivalente à revolução de Gutenberg. Em dez anos, as pessoas vão perguntar o que você fazia nesse época sensacional. O presente.” […] “As editoras estão entrando no mundo digital a contragosto, esperneando. Elas agora podem vender qualquer coisa a qualquer pessoas, e estão lutando contra isso!”

“As pessoas estão lendo mais, porque é mais simples. Trata-se de dar ao consumidor o que ele quer, quando ele quer.” “O consumidor não se interessa por tecnologia — se interessa pela simplificação”.

[Paradoxalmente] “o marketing na era digital não vai ser sensível à anúncios e comunicação corporativa — vai depender do pessoal, as compras serão feitas por recomendação de pessoas de verdade, acessáveis em seu telefone.”

“Não é papel do leitor ir até o Facebook e curtir a página da editora, mas que são as editoras que devem ficar amigas de seus leitores.”

“As megalivrarias têm controle demais sobre os produtos que vendem. De quem é o livro, afinal? Da editora ou da livraria? As editoras inteligentes vão estabelecer uma ligação direta com o leitor.”

“Editor: sua prioridade absoluta agora é aproveitar a oportunidade e estabelecer uma relação direta com seu consumidor/leitor. Se você não o fizer, as megalivrarias farão. Se elas não fizerem, os autores farão.”

Editora para quê? Só precisamos de autores, leitores… e da Amazon.

 

Amazon assina com escritores, tirando as editoras da jogada

 

New York Times


A Amazon ensinou aos leitores que eles não precisam de livrarias. Agora está encorajando os escritores a descartar seus editores. 

A Amazon está para publicar 122 livros em diversos gêneros, tanto no formato físico quanto em e-book. É uma aceleração assombrosa do programa incipiente de publicação que irá colocar a Amazon de frente contra as empresas que são também seus mais proeminentes fornecedores.

Ela criou um selo, dirigido pelo veterano editor, Laurence Kirshbaum, para amealhar grandes nomes da ficção e da não ficção. Assinou seu primeiro contrato com o escritor de autoajuda Tim Ferris. Na última semana, anunciou as memórias da atriz e diretora Penny Marshall, pelas quais pagou U$ 800 mil, segundo uma pessoa diretamente envolvida com a negociação.

As editoras dizem que a Amazon está agressivamente seduzindo alguns de seus escritores mais importantes. E a companhia está abocanhando os serviços que as editoras, críticos e agentes costumavam prestar.

Vários editores de grande porte declinaram a dar opinião sobre as tentativas da Amazon. “As editoras estão aterrorizadas, e não sabem o que fazer”, disse Dennis Loy  Johson, da Melville House, que é conhecido por dizer o que pensa. 

“Todos têm medo da Amazon”, disse Richard Curtis, um agente de longa carreira, que é também editor de e-books. “Se você é uma livraria, a Amazon têm sido seu concorrente há um bom tempo. Se você é uma editora, um dia vai acordar e a Amazon estará concorrendo com você, também. E, se você é um agente, a Amazon pode estar roubando seu almoço porque está oferecendo aos autores a oportunidade de publicar diretamente e tirá-lo da jogada”.

“É a velha estratégia: dividir para conquistar”, disse Mr. Curtis.

Os executivos da Amazon, entrevistados no quartel-general da companhia, declinaram em dizer quantos editores a empresa contratou, ou quantos livros eles têm sob contrato. Porém negaram que a Amazon seja assim tão poderosa, e disseram que as editoras estão apaixonadas por sua própria decadência.

“É sempre um fim do mundo”, disse Russel Grandinetti, um dos mais altos executivos da Amazon. “As pessoas marcam no relógio”.

Ele destacou, no entanto, que a paisagem está, de alguma forma, se alterando desde que Gutenberg inventou o livro moderno há cerca de 600 anos. “As únicas pessoas realmente necessárias no processo de publicação são o escritor e o leitor”, disse. “Para todos que estiverem entre esses dois haverá riscos e oportunidades”. 

A Amazon começou a dar a todos os autores acesso direto ao respeitado relatório de vendas Bookscan, da Nielsen, que registra quantos livros físicos eles estão vendendo em mercados específicos, como Milwaukee ou Nova Orleãs. Está introduzindo no mercado um tipo de comunicação direta entre os autores e seus fãs, o que só costumava acontecer em tours promocionais. Fez de um obscuro romance histórico alemão um bestseller, sem que nenhum avaliador profissional tivesse opinado.

As editoras viram de relance um futuro no qual, temem, não haverá lugar para elas quando, no mês passado, a Amazon apresentou o Kindle Fire, um tablet para livros e outras mídias vendidas pela Amazon. Jeffrey P. Bezos, o CEO da empresa, referiu-se várias vezes ao Kindle como “um serviço de ponta a ponta”, concebendo um mundo no qual a Amazon desenvolve, promove e entrega o produto.

Para ter uma ideia de quanto as editoras estão perturbadas pela entrada da Amazon em seu negócio, basta olhar para Kiana Davenport, uma escritora havaiana cuja carreira saiu abruptamente dos trilhos no mês passado.

Em 2010, a senhora Davenport assinou contrato com a Riverhead, uma divisão da Penguin, para o livro The Chinese Soldier’s Daughter, uma história de amor passada na Guerra Civil. Ela recebeu adiantamento de U$ 20 mil pelo livro, que, esperava-se, seria lançado em agosto passado.

Se há alguma coisa que os escritores sabem que fazer, hoje em dia, é “correr atrás”. Assim, a senhora Davenport tirou da prateleira uma coletânia premiada de contos que ela havia escrito há 20 anos, a compilou em um e-book chamado de Cannibal Nights e o disponibilizou na Amazon.

Quanto a Penguin descobriu, ficou “furiosa”, e a acusou de quebrar sua promessa contratual de evitar concorrer consigo mesma. Exigiu que Cannibal Nights fosse excluído da Amazon e que todas as menções a esse e-book fossem removidos da internet.

A sra. Davenport recusou-se e, assim, a Penguin cancelou seu romance e ameaçou processar a escritora, se ela não devolver o adiantamento.

“Eles estão querendo deixar um exemplo: se você se autopublica e distribui com a Amazon, isso é por sua conta e risco”, disse Jan Constantine, uma advogada da liga dos escritores que representa a sra. Davenport.

A escritora sabe de que crime está sendo acusada: o de “dormir com o inimigo”.

Se alguns escritores estão correndo danos colaterais, outros estão se beneficiando desse novo arranjo. Laurel Saville estava de fora da jogada no sistema antigo, quando as editoras de New York eram os gatekeepers (os “guardas dos portões”). “Eu recebia um bocado de elogios, mas nada de fechar contrato”, disse a sra. Saville, 48 anos, uma autora de livros de negócios que mora em Little Falls, Nova York.

Há dois anos ela decidiu pagar pela publicação de seu livro de memórias sobre a decadência de sua mãe, de rainha da beleza californiana a moradora de rua e vítima de assassinato. Gastou cerca de U$ 2.200, e conseguiu vendas de 600 exemplares. Nada horrível, mas longe de impressionar.

No último outono, a senhora Saville pagou U$ 100 para ser incluída em uma lista da Publishers’ Weekly de escritores autopublicados. A revista acabou fazendo uma resenha de seu livro de memórias, com uma avaliação morna que, mesmo assim, chamou a atenção dos editores da Amazon, que enviaram à sra. Saville um e-mail oferecendo a republicação do livro. Ele foi reeditado, ganhou uma nova capa e um novo título: Unravelling Anne. Será publicado no mês que vem.

A sra. Saville não recebeu nenhum dinheiro adiantado, como aconteceria se alguma editora tradicional tivesse escolhido seu livro de memórias. Em resumo, a Amazon tornou-se sua sócia.

“Estou presumindo que eles queiram ganhar um bom dinheiro com o livro, o que me encoraja”, disse a senhora Saville, que negociou seu contrato sem o intermédio de um agente.

Seu contrato tem uma cláusula que a proíbe de discutir os detalhes, o que não é tradicional nos livros. Os planos de promoção do livro também são sigilosos.

Será que a Amazon pode secretamente criar seus próprios bestsellers? The Hangman Daughter foi um sucesso em e-book. A Amazon comprou os direitos do romance histórico e um autor estreante, Oliver Pötzsch, e o traduziu do alemão. Já vendeu mais de 250 mil exemplares digitais.

“O mais importante e fascinante a respeito do programa de publicação da Amazon é que podem surgir fenômenos como esse”, disse Bruce Nichols da Houghton Mifflin Harcourt (grande grupo editorial), que republicou o romance em agosto.

A sra. Saville não mais pensa em uma carreira com uma editora tradicional. “Elas já tiveram sua chance”, disse. Ela agora está escrevendo um romance. “Espero que a Amazon o considere maravilhoso e que sejamos felizes para sempre no mundo editorial”, disse.

 

Editoras cedem poder a escritores

 

[Algumas editoras legacy têm se dado conta de que o digital está nivelando as ferramentas de publicação, e que publicar e comercializar livros não são mais seus privilégios. Algumas estão agindo, antes que seja tarde demais.]

 

Novo serviço para autores que querem autopublicar e-books

Julie Brosman

New York Times

 

O grupo editorial Perseus anunciou um serviço de distribuição e marketing que permitirá a escritores autopublicar seus próprios e-books.

O novo serviço dará aos autores uma opção entre os outros serviços de autopublicação e um reparte considerável da receita, que é incomum para a indústria: 70% para o autor e 30% para o distribuidor. Os editores tradicionais geralmente repassam aos autores royalties de cerca de 25% no caso de e-books.

O serviço desponta quando autores estão procurando cada vez mais maneiras de contornar o modelo de publicação tradicional, tomando partido das infinitas prateleiras do mundo do e-book e lançando eles mesmos suas obras. Especialmente no caso de reviver livros fora de estoque cujos direitos reverteram ao autor.

[…]

A nova unidade da Perseus, chamada de Argo Navis Author Services, estará disponível somente para escritores que sejam representados por uma agência que tenha assinado um acordo com a Perseus. David Steinberger, o presidente chefe executivo do Grupo Editorial Perseus, disse que a companhia fez um acordo com uma grande agência literária, a Janklow & Nesbit Associates, que tem, entre seus representados, Ann Beattie, Anne Rice e Diane Johnson. A Curtis Brown, Ltd., que representa Karen Armstrong e Jim Collins, também está perto de assinar um acordo para disponibilizar a Argo Navis para seus autores. A Perseus está em entendimentos com mais de uma dúzia de outras agências.

“Fundamentalmente, tornou-se nossa preocupação quando ouvimos, de autores e agentes, que eles estariam procurando alternativas”, disse Mr. Steinberger. “Ouvimos falar de autores que talvez tenham livros que nunca foram publicados, porque não se encaixavam no que suas editoras estavam procurando”.

Ele enfatizou que, ainda que Argo Navis provesse distribuição e serviços de marketing, o escritor faria a função do editor [publisher]. Mesmo que os autores ganhem uma fatia muito maior da receita nesse arranjo, eles receberão menos serviços e apoio financeiro, que geralmente são fornecidos pelas editoras sob contratos mais convencionais.

Em um esforço para solucionar o problema de como ajudar os leitores a descobrir os e-books sem a contrapartida dos livros impressos nas bancadas das livrarias, a Argo Navis fornecerá serviços básicos de marketing, como inserir as páginas do produto nos sites das livrarias. Também disponibilizará serviços mais completos de marketing, mediante uma taxa.

Os e-books serão distribuídos a pontos de venda como a Amazon, a BN.com, a Google, a Kobo, a Sony e a Apple.

Jack W. Perry, um consultor em publicação, disse que o serviço pode atrair aqueles escritores que querem seus e-books publicados com vasta distribuição.

“Muitas vezes, quando as pessoas trabalham seus próprios e-books, têm que fazer um bocado de coisas”, disse. “A Perseus está tentando tirar esse fardo deles”.

Nenhum escritor assinou contrato ainda, disse Mr. Steinberger.

Tim Knowlton, o executivo chefe da Curtis Brown, disse que o serviço era uma opção atraente para autores cujos livros ficaram fora de catálogo ou para livros para os quais os autores retenham os direitos digitais.

“A possibilidade de selecionar quais livros um escritor ou um herdeiro gostaria de colocar para imprimir, e assim fazê-lo de modo relativamente barato, é muito atraente”, disse Mr. Knowton. “Para qualquer livro que tenha potencial para vendas significativas, esta será uma boa oportunidade a explorar”.

 

 

Vídeo: Carlo Carrenho, “Prateleiras infinitas”

 

O economista, editor e jornalista Carlo Carrenho (Singular, Publishnews) fala sobre o impacto das novas tecnologias de impressão no mercado de livros. Conversa registrada no Primeiro Encontro do Fórum Autor 2.0, ocorrido no dia 3 de setembro de 2011, no Parque Lage. Uma realização Ímã Editorial

Ludditas da era digital?

 

Quando a revolução industrial estava no berço, eclodiu o movimento dos Ludditas, operários que sabotavam as máquinas — “porque elas iriam tirar o trabalho dos homens”. Em 1811, um trabalhador médio (às vezes, crianças de 8 anos) cumpria 12 horas por dia de trabalho repetitivo, de segunda a sábado, por alguns shillings, sem previdência social ou o que chamamos de “direitos trabalhistas”. E ficavam horrorizados ante a perspectiva de “perder” seu modo de vida.

“Talvez não pareça isso para alguns, mas escrever livros é um trabalho real. Esse grupo de universidades norte-americanas não tem a autoridade para decidir se, quando ou como os autores devem perder seus direitos”. Frase de Angelo Loukakis, representando um grupo de autores australianos. Eles e seus colegas do Canadá e dos Estados Unidos — já que não podem sabotar a gigantesca máquina sem engrenagens do Google — resolveram processar as universidades que ousarem disponibilizar textos em bibliotecas virtuais. Não querem que seus livros sejam “emprestados” via elétrons. (Nada foi dito contra as bibliotecas físicas, no que se conclui que os autores querem ao menos a satisfação de obrigar o leitor a sair de casa).

As universidades e o Google argumentam que os livros disponibilizados são devidamente licenciados (pelas editoras a quem os próprios autores passaram os direitos quando assinaram o copyright) ou estão em domínio público. A porca torce o rabo é na questão dos “livros órfãos”, aqueles títulos cuja autoria não pode ser identificada (talvez porque “filho feio não tem pai”), e que permanece sem solução legal. Ainda que esses correspondam aos livros menos interessantes e consultados, os autores querelantes enxergam nisso uma brecha para permitir futuros abusos.

Os ludditas anti-Revolução Industrial quebraram alguns teares mecânicos, explodiram algumas caldeiras. Mas foram derrotados pelos novos tempos — e seus bisnetos têm direito a trabalhar 8 horas por dia, se quiserem.

Os autores querelantes anti-Revolução Digital talvez tenham razão. Seus bisnetos poderão dizer.

Leia mais aqui.

 

 

Vídeo: “Por um novo aparato publicador”, Julio Silveira

 

O editor Julio Silveira abre o primeiro Fórum Autor 2.0, que ocorreu no Parque Lage, no dia 3 de Setembro de 2011.
Em uma síntese histórica da evolução livro, analisando a relação entre escritores, leitores e o aparato publicador — nos últimos 800 anos — Julio demonstra que podemos estar às portas de uma revolução.

O fim do papel? Autores debatem futuro dos livros digitais

 

GUILHERME FREITAS

Prosa online

Tema de uma série de debates na 15ª Bienal do Rio e preocupação constante do meio editorial nos últimos anos, o debate sobre o futuro — e sobretudo o presente — das novas tecnologias de leitura e difusão de livros ganhou espaço nesta sexta-feira também na programação do Café Literário. A mesa “Apresentando o livro digital” reuniu a pesquisadora Giselle Beiguelman e os editores Carlo Carrenho e Daniel Pinsky, com mediação da jornalista Cristiane Costa, para tentar jogar luz sobre um momento em que há mais apostas e previsões do que certezas.
Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Giselle Beiguelman trabalha com suportes digitais de leitura há mais de uma década e foi uma das primeiras autoras no país a publicar um estudo sobre o tema, “O livro depois do livro” (1999). Ela criticou as “previsões apocalípticas” sobre o fim dos livros de papel (“Já se pode fazer uma história da morte e ressurreição do livro”) e desenhou um cenário em que as novas tecnologias não substituirão as antigas, apenas as complementarão.
– O livro de papel é a tecnologia mais estável já criada no campo cultural, continua o mesmo há mais de mil anos. O e-book não é só a versão digitalizada do livro de papel, ele vai criar um espaço para si. Livros são, desde sempre, máquinas de leitura em torno da qual se organizam uma série de práticas culturais. O que o livro eletrônico faz é abrir um novo espectro de práticas desse tipo – disse Giselle, citando aparelhos que fazem uso das redes sociais, telas de touch screen e projeções para “tornar mais complexo e interessante o ato de leitura”.
Criador do boletim “Publishnews”, dedicado ao mercado editorial brasileiro, Carlo Carrenho assinalou a discrepância entre a situação nos Estados Unidos hoje, onde a participação dos livros digitais no mercado cresceu de 1% em 2008 para 20% atualmente, com do Brasil, onde, assim como no resto do mundo, essa parcela continua incipiente. Diretor-executivo da Singular, unidade de impressão sob demanda da Ediouro, ele observou que essas tecnologias abrem caminho para que autores publiquem seus livros sem passar pelo crivo de editores. Para alguns críticos, esse processo pode banalizar o meio literário, mas Carrenho discorda:
– Quando Gutemberg inventou a imprensa, a nobreza europeia tinha a mesma preocupação. Um juiz de Florença chegou a dizer que a pena do monge era a esposa, e a imprensa, a prostituta, porque vulgarizava os livros. Hoje há muitos monges florentinos no mercado editorial, mas não podemos temer a democratização – disse Carrenho.
Sócio-diretor da Editora Contexto, Daniel Pinsky defendeu que as maiores possibilidades de autopublicação só aumentam a importância dos editores.
– Há uma grande diferença entre publicar e editar. Comas tecnologias digitais, publicar ficou muito fácil. Mas editar é uma atividade que envolve várias funções, de ajudar o autor a melhorar o livro a definir pontos de venda. Mesmo num cenário em que qualquer um possa publicar seus livros, os editores sempre serão terão um papel fundamental.
Livro digital vai decolar no Brasil quando for melhor difundida a internet em banda larga, tablets mais baratos, e investimento maior das editoras, que por enquanto ainda têm receio dos e-books, principalmente pelo risco maior de pirataria no meio digital. Mas acredita que a partir de 2013 os livros digitais vão representar uma parcela grande do mercado.

“Areopagítica”

 

C. S. Soares

Jorge Luis Borges definiu o livro como uma extensão da memória e da imaginação. Creio que o livro também seja uma extensão das circunstâncias, pois muitas das maiores obras já produzidas foram obras de circunstâncias. Outra frase memorável de Borges é aquela que lembra como Platão via os livros: efígies que se julga estarem vivas, mas que, indagadas sobre alguma coisa, nada respondem. Sabemos que o ateniense também afirmou que as ideias residem em um mundo intangível e são construtoras fundamentais da  realidade. O livro-ideia alicerce do livro-objeto, morto como uma efígie, é uma interessante conjectura que admite variadas interpretações. O mesmo acontece com os livros que não abrimos, eles admitem diversas interpretações enquanto gravitam amistosamente no limbo do escrito e não lido, o que não significa que, ainda assim, tenham sido menos comentados.  Que interpretação podemos extrair dos livros não publicados? É um direito inalienável do leitor, a escolha de não ler um livro, direito que não pode exercido, com liberdade, sobre um livro cuja publicação tenha sido sabotada. O direito de publicação também é inalienável. Houve épocas em que livros foram proibidos, censurados e destruídos. Um livro é sempre um símbolo que designa um signo, é algo que representa outra coisa para alguém. O que representa? Que coisa é essa? A quem interessa? Quando Heráclito conclui que o mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque nem o homem nem o rio serão os mesmos, ele fala de um devir que é o mesmo dos livros, dos autores, dos leitores e de seus signos. Certos livros não são escritos apenas para serem lidos, mas também para serem interpretados e outros, obras de circunstância por seu próprio testemunho, são mais do que uma alegação, são uma execução inescapável de humanidade. Os livros que nada respondem não foram os livros de John Milton, o sonhador genial, por sua própria consciência recrutado para as lides polêmicas. Ele parece jamais ter admitido livros omissos. Os livros de Milton não são objetos absolutamente mortos, preservam o intelecto vivo de seus autores, são livros que dialogam, que semeiam ideias que, em condições apropriadas, também podem irromper tão fantasticamente quanto os guerreiros da mitologia grega nascidos dos fabulosos dentes de dragão plantados por Cadmo. Ideias são a principal substância da qual os livros são feitos. Há uma perturbadora causalidade entre o sensível e o intangível que abala nossas superfícies sociais tão falazmente ordenadas. Entre o livro-sensível e a ideia-intangível é estabelecida uma relação de imitação, participação, comunhão ou presença. Há um alerta ao poder das ideias, semeadas nas páginas de Areopagítica, testemunho executório autopublicado por John Milton em novembro de 1644, no qual o autor sugere que livros são tão vivos e fecundos quanto os dentes semeados de um dragão mítico. Areopagítica, cujo nome deriva de Areópago, antigo tribunal de Atenas, é talvez a primeira defesa sistemática do direito à autopublicação da história. Milton identifica três áreas de tensão da publicação independente e do direito de imprensa que até os dias de hoje servem para torná-los controversos: a área política, a área empresarial e a área acadêmica. Não é muito difícil entender porque a tensão ocorre. Quando discutimos autopublicação mexemos com  estruturas bem mais complexas do ponto de vista da organização de uma sociedade. Para começar, a sobrevivência de um estado ideológico se articula no rígido controle das ideias, algo impossível se a autopublicação é permitida. No que diz respeito ao âmbito empresarial, sabe-se que opções viáveis de autopublicação debilitam o modelo de negócios usado há tempos pelas editoras, que se posicionam entre o autor e o publico, como porteiras do mercado editorial. Além disso, é inegável que autopublicação também desafia a noção estabelecida de que apenas autoridades credenciadas têm permissão de contribuir no debate e instrução públicos. John Milton, para quem livros jamais foram coisas absolutamente mortas, o estudioso das religiões, poeta, dramaturgo, orador e político inglês, escreveu e autopublicou Areopagítica, seu eloquente opúsculo, como uma das mais contundentes e apaixonadas defesas filosóficas do princípio e do direito à autopublicação e à liberdade de opinião e de expressão.

Livros demais 2

 

Raquel Cozer fala da abundância de títulos e dos estoques inadministráveis. Sinais de que a equação da indústria editorial está tão certa quanto a fórmula que matou Wall Street?
 

Raquel Cozer

O Estado de S.Paulo

Expansão em ritmo acelerado

Por alto, Sergio Machado calcula que sejam mais de 2 milhões de livros. Isso considerando só o excesso, “algo de que a gente poderia se desfazer sem afetar em nada a editora”. Estão estocados há cinco, seis anos, num armazém alugado próximo à sede da Record, grupo editorial que Machado preside, ali junto ao estádio do Vasco, na zona norte do Rio. Lá seguiriam indefinidamente não fosse o recente pedido de desocupação do lugar. Agora o dono da maior editora de obras de interesse geral do País tem poucos meses para dar destino às pilhas que abarrotam o lugar. “Estamos alugando outro espaço, menor e mais caro, e avaliando alternativas”, diz Machado. “É provável que alguma coisa seja destruída.”

A eliminação de sobras de livros é tema abordado com cautela por empresários, mas a prática de “transformar em aparas”, como eles preferem, é bem menos rara do que se possa pensar, em especial neste momento em que o mercado editorial brasileiro produz muito mais do que consegue vender. A mais recente pesquisa de produção e vendas do setor, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), dá a dimensão. Em 2010, as editoras produziram quase 23% mais exemplares de livros que em 2009, enquanto o crescimento no número de cópias vendidas foi de apenas 13%. Conforme a estimativa, ao longo do ano foram produzidos 55 milhões de livros a mais do que se comercializou para o mercado e o governo, mantendo uma tendência à superprodução já percebida nos últimos anos. Num momento em que o digital domina o debate sobre o futuro do livro, o presente é feito de encalhe de livros em papel.

Os números confirmam a percepção unânime de editores e livreiros desse fenômeno que, mais cedo ou mais tarde, repete-se em vários países. “Há uma superprodução. Trabalho na área desde 1984 e nunca vi coisa igual. De uns dois anos para cá, deu um salto”, diz Ricardo Schil, gestor de negócios da Livraria Cultura. Atuando nos dois lados do segmento, o editor e livreiro Alexandre Martins Fontes diz não ter dúvida de que hoje se produz muito mais do que o mercado pode consumir. “E me pergunto onde isso vai parar. Em algum momento o mercado terá de se autorregular. Porque, se você publica e não vende, uma hora você quebra.”

O inchaço na produção teve como estímulos o aumento das compras pelo governo, o maior poder aquisitivo da classe C e o crescimento de um público leitor mais jovem, decorrência do sucesso de Harry Potter. Mas, mais do que o número de compradores em potencial, o que impulsionou essa superprodução foram as facilidades tecnológicas. “Antigamente, para editar um livro eram necessários equipamentos caros e sofisticados. Aquilo era uma espécie de filtro. Com as novas possibilidades de edição e impressão ficou tudo mais viável”, diz Sérgio Machado.

Entre edições e reedições, publicaram-se em 2010 no Brasil quase 55 mil títulos, numa média de 210 diferentes obras chegando ao mercado por dia útil. Só o Grupo Record, adepto de uma agressiva estratégia de publicar muito para que os sucessos compensem os fracassos, coloca no mercado todo mês 80 novos títulos. Nem uma esfriada nas vendas, como a percebida nos últimos meses pela diretora editorial da casa, Luciana Villas-Boas, prejudica a produção do grupo, que imprime 600 mil exemplares por mês. “Se caem as vendas, acabamos publicando mais títulos, porque as máquinas ficam menos tempo ocupadas com reimpressões.”

Esse tipo de pensamento incomoda editoras menores. “Se por um lado essa variedade de títulos parece boa, ao final, quando o gargalo é a distribuição, o problema fica ainda maior. A disputa por espaço nas livrarias torna-se inviável”, diz Cristina Warth, editora da Pallas.

Com cerca de cem associadas, a Libre, entidade que reúne pequenas e médias editoras, entende que o excesso de oferta prejudica a bibliodiversidade. Foi o que constatou também uma recente pesquisa divulgada na Espanha pela FGEE, a maior entidade editorial local: naquele país, um novo título tem no máximo 30 dias para chamar a atenção do público leitor antes de dar lugar a títulos ainda mais novos nas estantes das livrarias.

O excesso de oferta pode parecer positivo para o leitor, mas não é bem assim. No Brasil, desde 2004 as pesquisas apontam para uma queda no preço do livro, mas mais lenta do que fariam supor as facilidades de impressão e a concorrência acirrada. Como as editoras publicam muito mais do que as livrarias conseguem estocar, os gastos com marketing e estratégias de exposição aumentam os custos o investimento. “Com o exagero na produção de títulos, algumas coisas boas, autores ou títulos, já nascem mortas, pois não conseguirão o mesmo espaço para divulgação na imprensa ou nas livrarias”, diz Warth, da Pallas.

Estocagem. Há algum tempo, o escritor amazonense Márcio Souza recebeu do governo do Pará a sobra de uma HQ baseada em seu romance Galvez, o Imperador do Acre, editada com financiamento público. Era algo em torno de 300 exemplares, que Souza começou a distribuir entre amigos. “Acho que seria mais fácil eu me livrar de um cadáver do que dessa sobra. Ainda tenho aqui uns cem. Ninguém tem tanto amigo.”

Doar é sinônimo de dor de cabeça. Para editoras, preparar kits com poucos exemplares de cada livro e distribuir entre instituições sairia mais caro que estocar e não resolveria a questão da quantidade; tampouco interessa às instituições receber mil exemplares de um livro só. “A doação existe, mas não resolve. Além disso, dependendo do contrato, você não consegue doar sem pagar direitos autorais. Daí precisa de documentação para fins de doação do autor e do governo”, diz Roberto Feith, diretor da Objetiva.

Maria Zenita Monteiro, coordenadora do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo, responsável por mais de cem pontos na cidade, diz que iniciativas de doações são raríssimas. “Quase 100% dos livros que as bibliotecas têm são comprados. Este ano, recebemos uma única doação de uma editora, a 34, que teve uma sobra de livros que publicaram pelo governo.”

Junta-se a isso o fato de que estocar é muito mais caro que destruir o encalhe, mesmo que a destruição implique perder o dinheiro da edição. No caso dos 2 milhões de livros para os quais a Record precisa achar uma solução, até fazer um saldão seria difícil, já que, segundo Machado, os autores teriam de autorizar os descontos. Logisticamente seria complicado. Só de autores nacionais, ele imagina, são cerca de 1.200, num universo de 3 mil títulos que figuram no armazém.

Feith acredita que a seleção cada vez maior de títulos será imprescindível. “Tudo tem o seu ponto de equilíbrio, o mercado editorial precisa descobrir o seu. Vamos ter de descobrir quando começar a existir prejuízo.” É claro que, no mercado editorial, até o conceito de ponto de equilíbrio é de difícil definição, já que um único best-seller sempre poderá compensar toda a aposta em títulos que encalham.

O futuro da publicação não se parecerá em nada com o atual.

 

Ilana Fox

FutureBook

 

Na revista Wired deste mês, Alain De Botton escreve que “o empreendedor pega tremores de insatisfação e anseio, e os transforma em interesses comerciais.” De Botton estava escrevendo sobre a Apple, mas seu princípio sobre o empreendedorismo pode ser aplicado à maioria das coisas. Acho perfeitamente adequado levar esse conceito a nossa amada indústria do livro.

Na posição de escritora — mas também como alguém que já trabalhar com o digital há mais de dez anos (jornais nacionais e principalmente no varejo) — sou fascinada pelas mudanças que acontecem na indústria do livro no momento. Aplaudo os esforços da Unbound para tentar criar um novo modelo de publicação, fico irritada com Amanda Hocking por ela ter atraído a geração de leitores do Crepúsculo com seus romances autopublicados que renderam-lhe uma fortuna, e me pergunto se os editores de livros tradicionais realmente são tão descartáveis como muitas pessoas (JK Rowling, eu estou olhando para você) parecem achar. Mas, acima de tudo, eu fico assistindo conferências esperando ouvir sobre a próxima grande coisa.

E espero. E continuo esperando.

O aplicativo Waste Land foi lançado muito recentemente, e como todo mundo, eu o amei. Eu o considero elegantemente feito — é bonito, tátil e abrangente — porém discordo de Bryan Appleyard no Times da semana passada. Eu não acho que ele seja um “ponto de virada para a literatura digital”. Eu acho que é apenas um app: um aplicativo lindo, absolutamente, mas apenas um app, no entanto.

O que eu estou esperando — e você provavelmente também está — é a virada de jogo que venha de dentro da indústria e não dos movimentos da Apple ou da Amazon. Estou esperando por esse momento maravilhoso onde, de repente, alguém surge com algo tão embasbacante que nós saberemos de pronto que a indústria terá mudado para sempre. Há murmúrios de idéias, há conversas que geram inovação, porém, enquanto a indústria do livro não chega a um entendimento com o cenário digital, parece que estamos em um daqueles primeiros encontros de adolescentes — desesperados para fazer o primeiro movimento libidinoso, mas incapazes de fazê-lo ou porque não se sabe bem o que se está fazendo, ou aterrorizados pela perspectiva da rejeição.

Ao contrário dos jornais (que sempre existiram em alguma forma, no papel ou não, porque sempre haverá novidades), ou das roupas (porque, excetuando aqueles em colônias nudistas, todos precisamos nos vestir), os livros podem considerados dispensáveis. Nós não precisamos deles para sobreviver, para ter uma conversa, para aprender. No entanto, paralelamente a este descontentamento, há também desejo — podemos até não precisar de livros, mas os queremos. E se nós os queremos temos que inovar para que o mercado de desejo por livros permanece intacto.

Nos meus instantes mais espertos eu me pergunto por que ainda não chegaram a uma solução, e eu tento colocar minha cabeça para pensar nisso. Parece-me que ficamos atolados nos detalhe, tão preocupados com modelos de precificação e de direitos digitais, que não estamos pensando grande. Não estamos pensando como empreendedores, como start-ups, não estamos achando que tudo é possível. Acima de tudo, precisamos entender que o futuro da indústria não vai se parecer em nada com o atual. Não devemos deixar que nossa tradição nos detenha.

Eu não sei qual será o futuro da publicação, é claro. Sou apenas uma escritora. No entanto, o que eu sei é que, para criar a inovação, precisamos ignorar tudo o que fizemos antes, e precisamos agir de forma empreendedora. Precisamos criar o desejo por livros mais uma vez nos leitores, e precisamos criar possibilidades que talvez pareçam embasbacantes agora, mas que se tornarão padrão no futuro.