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Disputando a hegemonia dos e-books, empresas miram os autores

Publishnews, 11 de janeiro de 2012

O ano de 2012 começou com repetidos rumores (aquiaqui e aqui, e aqui, por exemplo) sobre a possível entrada da Apple no segmento de autopublicação. Segundo os pomólogos de plantão, ainda neste mês será revelado que a interface de leitura da Apple, o desenxabido iBooks, ganhará recursos de publicação, voltados tanto para as editoras quanto diretamente para escritores.
Como muitos dos rumores, esse parece surgido menos da realidade do que da vontade de acreditar. Essa, porém, é uma hipótese muito bem endossada pela observação e pela lógica — de mercado.
Se o século 20 foi marcado pelo Grande Jogo — a corrida entre as nações para controlar o suprimento de petróleo —, neste século a disputa parece ser pela hegemonia no comércio de bens culturais digitais. As potências agora chamam-se Apple e Amazon (com uma titubeante Google correndo por fora). A música é território conquistado pela Apple e seu iTunes, porém, no segmento dos livros digitais, a empresa de Cupertino frequenta um lugar que não lhe é muito familiar: a retaguarda. A Apple fica comquatro de cada cem e-books vendido no mundo, contra 56 de sua rival de Seattle.
No front do hardware, a Amazon deu a largada com o e-leitor Kindle (2007), mas seu predomínio foi deletado pela tabuleta da Apple, o iPad (2010). A Amazon reagiu com o Fire, um tablet para as massas. Calcula-se que a próxima jogada da Apple envolveria uma tablet que abafasse o Fire, em termos de preço e recursos.
Também em termos de software a Apple ficou para trás. Seu iBook de estantes de “madeira” não tem aaffordance da interface da Kobo ou a ubiquidade dos kindlebooks. É a evidente defasagem que autoriza os especuladores a acreditar que a Apple vem, enfim, com novidades dignas de Santo Estêvão Jobs.
Já a “interface para escritores” seria a cristalização de uma tendência facilmente observável. Os principais vendedores de livros já montaram seus canais para selfpublishing. A Barnes and Noble tem oPubit e a Amazon acenou com seis milhões de dólares anuais para manter “autoautores” no seu cercadinho, o que pode ser encarado como um ataque preventivo. O fato é que hoje basta um ISBN e alguns cliques no site da Kindle Direct Publishing para que sua tese de mestrado ou sua coleção de sonetos integre o maior catálogo de livros do mundo. Já quem tentar o mesmo na Apple vai encarar uma burocracia intimidadora ou tomará o atalho dos “agregadores”, empresas que levam os editores e escritores à terra prometida da Apple em troca de uma comissão ou taxa.
Um desses agregadores — e líder da “publicação indie” — desqualifica os boatos e afirma que a Apple não vai se meter com autopublicação. Segundo Mark Coker, da Smashwords, a Apple é extremamente ciosa da qualidade do que vende, e teme que, quando a porta estiver aberta, coisas indesejadas possam entrar. (Como esse calhamaço escrito em MAIÚSCULAS, talvez o mais grotesco livro no catálogo da Amazon).
Boato ou não, o fato é que os über vendedores de livros parecem cada vez menos encantados com as editoras e cada vez mais enamorados dos autores. Sejam escritores mais que consagrados, sejam poetastros de gaveta, os autores nunca foram tão cortejados nem tiveram à disposição tantos meios para colocarem seu livro à venda instantaneamente, em escala mundial.
É evidente que esse câmbio de poder — que as megavarejistas digitais de certa forma retiram das editoras e concedem aos escritores — não acontecerá sem traumas. Todos os jogadores (escritores, editores, distribuidores, livrarias) terão que redefinir, a base da conversa ou dos pontapés, seus papéis, seus poderes e direitos.
Por conta do Grande Jogo do petróleo do século 20, o mundo continua em conflito. Como disse Kipling, “quando todos estiverem mortos, o Jogo terá chegado ao fim. Não antes disso”. Vamos esperar que o Grande Jogo digital do século 21 traga mais vencedores — e menos baixas.

Lenine e Bernardo Carvalho: autores, direitos e poderes.

 

No sumário edição de novembro da Revista Piauí estão em sequência uma matéria sobre o novo disco de Lenine em meio às tranformações do mercado fonográfico e um artigo do escritor Bernardo Carvalho sobre a situação do copyright nos tempos de Google. A proximidade dos artigos acaba provocando um diálogo entre eles, e destaca o contraste entre a atitude do compositor pernambucano-carioca e do romancista carioca-paulistano.

Sobre a função (econômica e social) do criador/autor, Bernardo Carvalho diagnostica decadência onde Lenine vê redenção. Ao mesmo tempo, o paralelo entre as indústrias fonográfica e editorial mostra que as apreensões daquela são déjà vu nesta.

Para Carvalho, a situação de conflito entre o direito de autor e as demandas da internet é “de fato e irreversível” e o copyright é cada vez mais “tradicional, restritivo e insustentável”. Porém isso não acontecerá sem esvaziar o papel do autor e da obra de arte, transformando o primeiro em um “negociante de direitos intelectuais segundo a lógica de uma empresa de mídia”, obrigado a “tornar-se cada vez mais público” e a segunda reduzida a um “serviço à comunidade”, por conta da impostura da “democracia”. O romancista, apesar de resignado, não hesita em delatar os culpados, todos lobos com cara de cordeiros. Um seria o Creative Commons — espécie de aliciador do direito autoral do indivíduo. Outro seria o Google, que “assumindo o papel de entidade suprema e legisladora […] sente-se no direito de digitalizar e oferecer gratuitamente tudo o que estiver publicado no mundo, sem a autorização dos autores”.

O suposto desprezo do Google pelos direitos dos autores é só um dos equívocos de Carvalho que acabam empanando o que seria uma argumentação tão clara e precisa como a prosa de livros como Mongólia e Nove noites. Ele incorre em um erro que, de tão difundido, soa como verdade — o copyright é um direito de quem? O Google julga-se no direito de tornar público somente aquilo que foi permitido pelo detentor do direito. E, ao contrário do que argumenta Carvalho, esse não é o autor. Estão no Google Books, acessíveis para pesquisa, somente aqueles livros cujos donos do copyright — as editoras — autorizaram.

Outro equívoco ocorre no primeiro parágrafo quando o romancista equivale “copyright” a “direito autorial”. Copyright — o direito de reprodução — não é direito autoral, e tampouco é um direito do autor. Copyright é um direito da editora (gravadora etc) do qual o autor abriu mão, cedeu, licenciou. Carvalho cita a Convenção de Berna (1886) como marco regular do direito do autor, porém ignora que foi justamente em Berna que o “droit d’auteur” que tinha Victor Hugo como campeão e que buscava proteger os autores individuais, foi solapado pelo “copyright”, uma demanda das empresas que comerciavam as obras que aqueles criavam. A Convenção estabeleceu direitos sobre a propriedade intelectual — basicamente definiu que empresas tem direito a explorar a dita obra.

O que aconteceu em Berna é descrito de modo singelo por Lenine:

“Lá no início parece que juntaram os donos das casas de música, o cara da editora e o inventor do gramofone. Fizeram uma reunião e dividiram tudo. No final, alguém perguntou: e o criador? E responderam: bota aí 5%! Eu acho que o criador nem estava na mesa.”

A matéria de Renato Terra sinaliza que talvez seja a hora do criador tomar um quinhão maior no resultado de suas criações.

“Lenine compõe as músicas, faz a produção, contrata instrumentistas, grava e negocia seus CDs com as gravadoras. Há pouco, o sistema dominante era o inverso: as gravadoras mantinham um plantel de artistas e, por contrato, arregimentavam os meios necessários”. Qual seria então o papel da gravadora hoje? Olivia Hime, da Biscoito Fino, já descobriu: “no novo formato, a gravadora tende a ser mais enxuta, virar parceira do artista”.

Voltando ao paralelo com a indústria editorial, Bernardo Carvalho conta com um excelente parceiro na pessoa (física e jurídica) de Luiz Schwarcz. A Companhia das Letras “arregimentou os meios” para que Carvalho pudesse amadurecer sua obra. Neste caso, não estamos falando de estúdios ou músicos, mas de diálogo criativo, apuro na produção e esmero no lançamento.

Bernardo Carvalho afirma que os novos tempos trouxeram uma mudança no conceito de obra. “O artista passou a ser proprietário da ideia”, lamenta. Pode-se encarar isso como uma maldição (se você estiver bem amparado pelo atual sistema) ou bênção (se você, de fora da festa, está disposto a tomar para si a tarefa de fazer valer, e render, sua criação). Ser proprietário de uma ideia pode significar autonomia para os empreendedores, ou uma “condenação à liberdade” para os introspectivos.


(editora promete) Autonomia para escritor

 

Em 2009, após 2 anos de fase beta, foi inaugurado o site authonomy, que chamou a atenção da comunidade de editores e escritores não exatamente por implementar as ferramentas colaborativas do digital no processo editorial — mas por ter sido lançado por um grande grupo editorial, a Harper Collins. Será que justamente uma editora legacy estaria democratizando a seleção de textos?

Quem consultar a FAQ, lerá que a ideia é “revelar novos talentos por meio da leitura pública dos projetos de autores inéditos”. Os candidatos a escritor que enviarem seu manuscrito ao site, terão seus textos disponibilizados para leitura, e os visitantes poderão expressar sua opinião com lacônicos “+” e “-“. A cada mês, os livros/projetos que estiverem entre os melhor “avaliados” merecerão a leitura de um editor da Harper Collins e daí — quem sabe — virão a ser publicados.

Entre os bons resultados que a authonomy tem a mostrar estão Miranda Dickinson, que conseguiu o 8º lugar na lista do Sunday Times com Fairytale of New York, e uma penca de outros escritores, que foram publicados tanto pela Harper Collins quanto pinçados por agentes literários.

Por outro lado, foi-se dito (com alguma propriedade) de que o site nada mais era do que uma slush pile digital. Isto é, que a Harper Collins apenas tinha passado para o meio eletrônico aquela “pilha de compostagem” de manuscritos amontoados, e confiado à cyber malta que separasse o (muito) joio do (pouco) trigo.

Outra suspeita recorrente é de que a Harper Collins queria apenas amealhar, entre os candidatos a escritores, clientes para sua empreitada de autopublicação ou de impressão por demanda. Quantos autores, cansados de esperar a avaliação de seus pares ou a boa vontade de um avaliador não estariam dispostos a pagar bem para liquidar a situação e publicar seu livro? E se, ainda por cima, tivesse o aval da Harper Collins?

O fato é que acaba de ser anunciado (para janeiro) um “Selo digital para os melhores autores do authonomy”. Eles não chegarão a entrar no catálogo dos capa duras, mas terão seus ebooks publicados — com a perspectiva de ganharem uma versão impressa se mostrarem-se bestsellers.

Talvez essa “novidade” signifique apenas um passo a mais no caminho que separa a publicação tradicional (arraigada em grandes grupos como a Harper Collins) aos novos parâmetros do digital. Quando esse caminho estiver completo, e a publicação e a leitura digitais estiverem amadurecidas (em breve), oferecer um “upgrade para o papel” para ebooks que venderem bem fará tanto sentido quanto oferecer a prensagem em LPs àqueles MP3 que se destacarem na iTunes store.

 

 

 

Editoras cedem poder a escritores

 

[Algumas editoras legacy têm se dado conta de que o digital está nivelando as ferramentas de publicação, e que publicar e comercializar livros não são mais seus privilégios. Algumas estão agindo, antes que seja tarde demais.]

 

Novo serviço para autores que querem autopublicar e-books

Julie Brosman

New York Times

 

O grupo editorial Perseus anunciou um serviço de distribuição e marketing que permitirá a escritores autopublicar seus próprios e-books.

O novo serviço dará aos autores uma opção entre os outros serviços de autopublicação e um reparte considerável da receita, que é incomum para a indústria: 70% para o autor e 30% para o distribuidor. Os editores tradicionais geralmente repassam aos autores royalties de cerca de 25% no caso de e-books.

O serviço desponta quando autores estão procurando cada vez mais maneiras de contornar o modelo de publicação tradicional, tomando partido das infinitas prateleiras do mundo do e-book e lançando eles mesmos suas obras. Especialmente no caso de reviver livros fora de estoque cujos direitos reverteram ao autor.

[…]

A nova unidade da Perseus, chamada de Argo Navis Author Services, estará disponível somente para escritores que sejam representados por uma agência que tenha assinado um acordo com a Perseus. David Steinberger, o presidente chefe executivo do Grupo Editorial Perseus, disse que a companhia fez um acordo com uma grande agência literária, a Janklow & Nesbit Associates, que tem, entre seus representados, Ann Beattie, Anne Rice e Diane Johnson. A Curtis Brown, Ltd., que representa Karen Armstrong e Jim Collins, também está perto de assinar um acordo para disponibilizar a Argo Navis para seus autores. A Perseus está em entendimentos com mais de uma dúzia de outras agências.

“Fundamentalmente, tornou-se nossa preocupação quando ouvimos, de autores e agentes, que eles estariam procurando alternativas”, disse Mr. Steinberger. “Ouvimos falar de autores que talvez tenham livros que nunca foram publicados, porque não se encaixavam no que suas editoras estavam procurando”.

Ele enfatizou que, ainda que Argo Navis provesse distribuição e serviços de marketing, o escritor faria a função do editor [publisher]. Mesmo que os autores ganhem uma fatia muito maior da receita nesse arranjo, eles receberão menos serviços e apoio financeiro, que geralmente são fornecidos pelas editoras sob contratos mais convencionais.

Em um esforço para solucionar o problema de como ajudar os leitores a descobrir os e-books sem a contrapartida dos livros impressos nas bancadas das livrarias, a Argo Navis fornecerá serviços básicos de marketing, como inserir as páginas do produto nos sites das livrarias. Também disponibilizará serviços mais completos de marketing, mediante uma taxa.

Os e-books serão distribuídos a pontos de venda como a Amazon, a BN.com, a Google, a Kobo, a Sony e a Apple.

Jack W. Perry, um consultor em publicação, disse que o serviço pode atrair aqueles escritores que querem seus e-books publicados com vasta distribuição.

“Muitas vezes, quando as pessoas trabalham seus próprios e-books, têm que fazer um bocado de coisas”, disse. “A Perseus está tentando tirar esse fardo deles”.

Nenhum escritor assinou contrato ainda, disse Mr. Steinberger.

Tim Knowlton, o executivo chefe da Curtis Brown, disse que o serviço era uma opção atraente para autores cujos livros ficaram fora de catálogo ou para livros para os quais os autores retenham os direitos digitais.

“A possibilidade de selecionar quais livros um escritor ou um herdeiro gostaria de colocar para imprimir, e assim fazê-lo de modo relativamente barato, é muito atraente”, disse Mr. Knowton. “Para qualquer livro que tenha potencial para vendas significativas, esta será uma boa oportunidade a explorar”.

 

 

Vídeo: C. S. Soares, “Escrever é tecnologia de diálogo”

 

O escritor, desenvolvedor de software e epublisher C. S. Soares, diretor do Pontolit, fala da interrelação entre a narrativa literária e as tecnologias de comunicação. A conversa ocorreu no Primeiro Encontro do Fórum Autor 2.0, realizado pela Ímã Editorial.

Vídeo: Sérgio Rodrigues (parte 2/2)

 

A segunda e última parte da participação do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, colunista do Todoprosa, no Fórum Autor 2.0, que ocorreu no Parque Lage, no dia 3 de Setembro de 2011.
A primeira parte pode ser assistida aqui.
Sérgio trata, entre outras coisas, da relação do escritor com os dispositivos digitais, a interação, os limites da literatura e as novas formas de expressão do texto.

Vídeo: “Interação ou Interrupção”, Sérgio Rodrigues (parte 1/2)

 

A primeira parte da participação do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, colunista do Todoprosa, no Fórum Autor 2.0, que ocorreu no Parque Lage, no dia 3 de Setembro de 2011.
A segunda parte pode ser assistida aqui.
Sérgio trata, entre outras coisas, da relação do escritor com os dispositivos digitais, a interação, os limites da literatura e as novas formas de expressão do texto.

Vídeo: “Por um novo aparato publicador”, Julio Silveira

 

O editor Julio Silveira abre o primeiro Fórum Autor 2.0, que ocorreu no Parque Lage, no dia 3 de Setembro de 2011.
Em uma síntese histórica da evolução livro, analisando a relação entre escritores, leitores e o aparato publicador — nos últimos 800 anos — Julio demonstra que podemos estar às portas de uma revolução.

O fim do papel? Autores debatem futuro dos livros digitais

 

GUILHERME FREITAS

Prosa online

Tema de uma série de debates na 15ª Bienal do Rio e preocupação constante do meio editorial nos últimos anos, o debate sobre o futuro — e sobretudo o presente — das novas tecnologias de leitura e difusão de livros ganhou espaço nesta sexta-feira também na programação do Café Literário. A mesa “Apresentando o livro digital” reuniu a pesquisadora Giselle Beiguelman e os editores Carlo Carrenho e Daniel Pinsky, com mediação da jornalista Cristiane Costa, para tentar jogar luz sobre um momento em que há mais apostas e previsões do que certezas.
Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Giselle Beiguelman trabalha com suportes digitais de leitura há mais de uma década e foi uma das primeiras autoras no país a publicar um estudo sobre o tema, “O livro depois do livro” (1999). Ela criticou as “previsões apocalípticas” sobre o fim dos livros de papel (“Já se pode fazer uma história da morte e ressurreição do livro”) e desenhou um cenário em que as novas tecnologias não substituirão as antigas, apenas as complementarão.
– O livro de papel é a tecnologia mais estável já criada no campo cultural, continua o mesmo há mais de mil anos. O e-book não é só a versão digitalizada do livro de papel, ele vai criar um espaço para si. Livros são, desde sempre, máquinas de leitura em torno da qual se organizam uma série de práticas culturais. O que o livro eletrônico faz é abrir um novo espectro de práticas desse tipo – disse Giselle, citando aparelhos que fazem uso das redes sociais, telas de touch screen e projeções para “tornar mais complexo e interessante o ato de leitura”.
Criador do boletim “Publishnews”, dedicado ao mercado editorial brasileiro, Carlo Carrenho assinalou a discrepância entre a situação nos Estados Unidos hoje, onde a participação dos livros digitais no mercado cresceu de 1% em 2008 para 20% atualmente, com do Brasil, onde, assim como no resto do mundo, essa parcela continua incipiente. Diretor-executivo da Singular, unidade de impressão sob demanda da Ediouro, ele observou que essas tecnologias abrem caminho para que autores publiquem seus livros sem passar pelo crivo de editores. Para alguns críticos, esse processo pode banalizar o meio literário, mas Carrenho discorda:
– Quando Gutemberg inventou a imprensa, a nobreza europeia tinha a mesma preocupação. Um juiz de Florença chegou a dizer que a pena do monge era a esposa, e a imprensa, a prostituta, porque vulgarizava os livros. Hoje há muitos monges florentinos no mercado editorial, mas não podemos temer a democratização – disse Carrenho.
Sócio-diretor da Editora Contexto, Daniel Pinsky defendeu que as maiores possibilidades de autopublicação só aumentam a importância dos editores.
– Há uma grande diferença entre publicar e editar. Comas tecnologias digitais, publicar ficou muito fácil. Mas editar é uma atividade que envolve várias funções, de ajudar o autor a melhorar o livro a definir pontos de venda. Mesmo num cenário em que qualquer um possa publicar seus livros, os editores sempre serão terão um papel fundamental.
Livro digital vai decolar no Brasil quando for melhor difundida a internet em banda larga, tablets mais baratos, e investimento maior das editoras, que por enquanto ainda têm receio dos e-books, principalmente pelo risco maior de pirataria no meio digital. Mas acredita que a partir de 2013 os livros digitais vão representar uma parcela grande do mercado.

Turow: “A pirataria de e-books pode destruir o mundo editorial”

 

Bol online

 

O autor e advogado norte-americano Scott Turow, 52, best-seller mundial por thrillers jurídicos como “Acima de Qualquer Suspeita” ­–que originou o filme homônimo de 1990, dirigido por Alan J. Pakula e estrelado por Harrison Ford — disse hoje em sabatina da Folha ver com preocupação a forma como os livros digitais vêm sendo pirateados.

“É preciso ter uma ação contra isso, ou eles vão destruir a base financeira do mundo editorial. E não são os autores best-seller quem mais tem a perder com isso, e sim os que estão só começando”, afirmou o escritor na entrevista, conduzida pela editora da Ilustrada, Fernanda Mena, no Teatro Folha.

A conversa teve como entrevistadores também Josélia Aguiar, colunista da Folha, Ives Gandra, professor emérito da Universidade Mackenzie, e Diego Assis, chefe de reportagem do UOL Entretenimento, e foi exibida ao vivo no UOL.

O autor tratou da discussão a respeito dos livros digitais ao ser questionado por Assis sobre artigo que publicou no “New York Times” criticando leis de flexibilização dos direitos autorais propostas pela organização sem fins lucrativos Creative Commons. “Concordo com [Lawrence] Lessig [fundador da organização] em algumas coisas. Não acho que direitos autorais deveriam ser estendidos do jeito que vêm sendo nos EUA no que diz respeito a estúdios de cinema, por exemplo.”

Turow, que participa neste domingo (11) na Bienal do Livro Rio, em mesa às 15h30 com Marc Levy, veio ao Brasil também para lançar o thriller “O Inocente”, sequência de “Acima de Qualquer Suspeita” – romance que o norte-americano sempre disse que não teria continuação. “Uma coisa que aprendi desta experiência é que você nunca deve acreditar em um escritor quando ele diz que nunca escreverá sobre determinado assunto.”

Kindle @author traz o autor de volta aos leitores

 

Um dos clichês dos cursos de literatura — “Para quem escreve o autor?” — pode deixar de ser uma pergunta estritamente retórica. O leitor, essa figura abstrata lá na outra ponta da cadeia do livro, pode ganhar nome e rosto e tornar-se amigo (no sentido Facebook da palavra) do escritor.
A distância ainda é imensa, mas a Amazon começou a apresentar o leitor a seu autor e vice-versa.  O Kindle, desde o último domingo (30 de agosto), permite que os leitores selecionem um trecho qualquer de um e-book e se dirijam ao escritor — tecendo um comentário, tentando esclarecer uma dúvida, rasgando um elogio. É o recurso @author, que está em fase de testes, restrita a 15 escritores.

A lista não é empolgante. Não espere que Coetzee, que não aceitou ser entrevistado na Flip, vá se dispor a esclarecer quem é o pai do filho de Lucy, em Desonra. Dentre os bois de piranha do projeto @author, lançados à curiosidade dos leitores estão o escritor de suspense-cristão (!) Ted Dekker, o filho desnaturado porém rico Robert Kiyosaki e o indie bestseller no Kindle John Locke. Nem tudo é desalento: Steve Johnson, do instigante e recém lançado De onde vêm as boas ideias está às ordens para o leitor desinibido.

Boatos no twitter dão conta de que o serviço, mal começou e já pode ser abatido. Como era de se esperar, a incidência de trolling é avassaladora, com muita gente debochando, ofendendo e ameaçando seu escritor. O que era para acabar as barreiras pode tornar-se mais um muro, de pichações.

E você, o que diria ao autor do livro que está lendo?

[Comente, no campo abaixo, ou por aqui. As melhores respostas vão ser reunidas em um outro post]

 

O futuro da publicação não se parecerá em nada com o atual.

 

Ilana Fox

FutureBook

 

Na revista Wired deste mês, Alain De Botton escreve que “o empreendedor pega tremores de insatisfação e anseio, e os transforma em interesses comerciais.” De Botton estava escrevendo sobre a Apple, mas seu princípio sobre o empreendedorismo pode ser aplicado à maioria das coisas. Acho perfeitamente adequado levar esse conceito a nossa amada indústria do livro.

Na posição de escritora — mas também como alguém que já trabalhar com o digital há mais de dez anos (jornais nacionais e principalmente no varejo) — sou fascinada pelas mudanças que acontecem na indústria do livro no momento. Aplaudo os esforços da Unbound para tentar criar um novo modelo de publicação, fico irritada com Amanda Hocking por ela ter atraído a geração de leitores do Crepúsculo com seus romances autopublicados que renderam-lhe uma fortuna, e me pergunto se os editores de livros tradicionais realmente são tão descartáveis como muitas pessoas (JK Rowling, eu estou olhando para você) parecem achar. Mas, acima de tudo, eu fico assistindo conferências esperando ouvir sobre a próxima grande coisa.

E espero. E continuo esperando.

O aplicativo Waste Land foi lançado muito recentemente, e como todo mundo, eu o amei. Eu o considero elegantemente feito — é bonito, tátil e abrangente — porém discordo de Bryan Appleyard no Times da semana passada. Eu não acho que ele seja um “ponto de virada para a literatura digital”. Eu acho que é apenas um app: um aplicativo lindo, absolutamente, mas apenas um app, no entanto.

O que eu estou esperando — e você provavelmente também está — é a virada de jogo que venha de dentro da indústria e não dos movimentos da Apple ou da Amazon. Estou esperando por esse momento maravilhoso onde, de repente, alguém surge com algo tão embasbacante que nós saberemos de pronto que a indústria terá mudado para sempre. Há murmúrios de idéias, há conversas que geram inovação, porém, enquanto a indústria do livro não chega a um entendimento com o cenário digital, parece que estamos em um daqueles primeiros encontros de adolescentes — desesperados para fazer o primeiro movimento libidinoso, mas incapazes de fazê-lo ou porque não se sabe bem o que se está fazendo, ou aterrorizados pela perspectiva da rejeição.

Ao contrário dos jornais (que sempre existiram em alguma forma, no papel ou não, porque sempre haverá novidades), ou das roupas (porque, excetuando aqueles em colônias nudistas, todos precisamos nos vestir), os livros podem considerados dispensáveis. Nós não precisamos deles para sobreviver, para ter uma conversa, para aprender. No entanto, paralelamente a este descontentamento, há também desejo — podemos até não precisar de livros, mas os queremos. E se nós os queremos temos que inovar para que o mercado de desejo por livros permanece intacto.

Nos meus instantes mais espertos eu me pergunto por que ainda não chegaram a uma solução, e eu tento colocar minha cabeça para pensar nisso. Parece-me que ficamos atolados nos detalhe, tão preocupados com modelos de precificação e de direitos digitais, que não estamos pensando grande. Não estamos pensando como empreendedores, como start-ups, não estamos achando que tudo é possível. Acima de tudo, precisamos entender que o futuro da indústria não vai se parecer em nada com o atual. Não devemos deixar que nossa tradição nos detenha.

Eu não sei qual será o futuro da publicação, é claro. Sou apenas uma escritora. No entanto, o que eu sei é que, para criar a inovação, precisamos ignorar tudo o que fizemos antes, e precisamos agir de forma empreendedora. Precisamos criar o desejo por livros mais uma vez nos leitores, e precisamos criar possibilidades que talvez pareçam embasbacantes agora, mas que se tornarão padrão no futuro.