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Lenine e Bernardo Carvalho: autores, direitos e poderes.

 

No sumário edição de novembro da Revista Piauí estão em sequência uma matéria sobre o novo disco de Lenine em meio às tranformações do mercado fonográfico e um artigo do escritor Bernardo Carvalho sobre a situação do copyright nos tempos de Google. A proximidade dos artigos acaba provocando um diálogo entre eles, e destaca o contraste entre a atitude do compositor pernambucano-carioca e do romancista carioca-paulistano.

Sobre a função (econômica e social) do criador/autor, Bernardo Carvalho diagnostica decadência onde Lenine vê redenção. Ao mesmo tempo, o paralelo entre as indústrias fonográfica e editorial mostra que as apreensões daquela são déjà vu nesta.

Para Carvalho, a situação de conflito entre o direito de autor e as demandas da internet é “de fato e irreversível” e o copyright é cada vez mais “tradicional, restritivo e insustentável”. Porém isso não acontecerá sem esvaziar o papel do autor e da obra de arte, transformando o primeiro em um “negociante de direitos intelectuais segundo a lógica de uma empresa de mídia”, obrigado a “tornar-se cada vez mais público” e a segunda reduzida a um “serviço à comunidade”, por conta da impostura da “democracia”. O romancista, apesar de resignado, não hesita em delatar os culpados, todos lobos com cara de cordeiros. Um seria o Creative Commons — espécie de aliciador do direito autoral do indivíduo. Outro seria o Google, que “assumindo o papel de entidade suprema e legisladora […] sente-se no direito de digitalizar e oferecer gratuitamente tudo o que estiver publicado no mundo, sem a autorização dos autores”.

O suposto desprezo do Google pelos direitos dos autores é só um dos equívocos de Carvalho que acabam empanando o que seria uma argumentação tão clara e precisa como a prosa de livros como Mongólia e Nove noites. Ele incorre em um erro que, de tão difundido, soa como verdade — o copyright é um direito de quem? O Google julga-se no direito de tornar público somente aquilo que foi permitido pelo detentor do direito. E, ao contrário do que argumenta Carvalho, esse não é o autor. Estão no Google Books, acessíveis para pesquisa, somente aqueles livros cujos donos do copyright — as editoras — autorizaram.

Outro equívoco ocorre no primeiro parágrafo quando o romancista equivale “copyright” a “direito autorial”. Copyright — o direito de reprodução — não é direito autoral, e tampouco é um direito do autor. Copyright é um direito da editora (gravadora etc) do qual o autor abriu mão, cedeu, licenciou. Carvalho cita a Convenção de Berna (1886) como marco regular do direito do autor, porém ignora que foi justamente em Berna que o “droit d’auteur” que tinha Victor Hugo como campeão e que buscava proteger os autores individuais, foi solapado pelo “copyright”, uma demanda das empresas que comerciavam as obras que aqueles criavam. A Convenção estabeleceu direitos sobre a propriedade intelectual — basicamente definiu que empresas tem direito a explorar a dita obra.

O que aconteceu em Berna é descrito de modo singelo por Lenine:

“Lá no início parece que juntaram os donos das casas de música, o cara da editora e o inventor do gramofone. Fizeram uma reunião e dividiram tudo. No final, alguém perguntou: e o criador? E responderam: bota aí 5%! Eu acho que o criador nem estava na mesa.”

A matéria de Renato Terra sinaliza que talvez seja a hora do criador tomar um quinhão maior no resultado de suas criações.

“Lenine compõe as músicas, faz a produção, contrata instrumentistas, grava e negocia seus CDs com as gravadoras. Há pouco, o sistema dominante era o inverso: as gravadoras mantinham um plantel de artistas e, por contrato, arregimentavam os meios necessários”. Qual seria então o papel da gravadora hoje? Olivia Hime, da Biscoito Fino, já descobriu: “no novo formato, a gravadora tende a ser mais enxuta, virar parceira do artista”.

Voltando ao paralelo com a indústria editorial, Bernardo Carvalho conta com um excelente parceiro na pessoa (física e jurídica) de Luiz Schwarcz. A Companhia das Letras “arregimentou os meios” para que Carvalho pudesse amadurecer sua obra. Neste caso, não estamos falando de estúdios ou músicos, mas de diálogo criativo, apuro na produção e esmero no lançamento.

Bernardo Carvalho afirma que os novos tempos trouxeram uma mudança no conceito de obra. “O artista passou a ser proprietário da ideia”, lamenta. Pode-se encarar isso como uma maldição (se você estiver bem amparado pelo atual sistema) ou bênção (se você, de fora da festa, está disposto a tomar para si a tarefa de fazer valer, e render, sua criação). Ser proprietário de uma ideia pode significar autonomia para os empreendedores, ou uma “condenação à liberdade” para os introspectivos.


Control+Alt+Del

 

A recente conferência TOC (Tools of Change) em Frankfurt apresentou a habitual sequência de palestras em que se mostram possibilidades assombrosas do digital para a publicação e que suscitam dúvidas e a costumeira ansiedade nas editoras estabelecidas — como poderemos nos adaptar?

A palestra de Mitch Joel, canadense expert em marketing digital destacou-se ao partir de uma perspectiva diferente — dê um control+alt+del ["command+option+esc" para o povo Mac].  Não tente se adaptar; não tente trazer suas práticas do livro impresso ao mercado digital. Pense do zero. Queime seus navios. Nada será como antes. O consumidor de hoje é diferente do de ontem — literalmente.

 

 

Algumas ideias e provocações que valem o destaque:

“Pode parecer assustador ou radical… essa é uma oportunidade equivalente à revolução de Gutenberg. Em dez anos, as pessoas vão perguntar o que você fazia nesse época sensacional. O presente.” […] “As editoras estão entrando no mundo digital a contragosto, esperneando. Elas agora podem vender qualquer coisa a qualquer pessoas, e estão lutando contra isso!”

“As pessoas estão lendo mais, porque é mais simples. Trata-se de dar ao consumidor o que ele quer, quando ele quer.” “O consumidor não se interessa por tecnologia — se interessa pela simplificação”.

[Paradoxalmente] “o marketing na era digital não vai ser sensível à anúncios e comunicação corporativa — vai depender do pessoal, as compras serão feitas por recomendação de pessoas de verdade, acessáveis em seu telefone.”

“Não é papel do leitor ir até o Facebook e curtir a página da editora, mas que são as editoras que devem ficar amigas de seus leitores.”

“As megalivrarias têm controle demais sobre os produtos que vendem. De quem é o livro, afinal? Da editora ou da livraria? As editoras inteligentes vão estabelecer uma ligação direta com o leitor.”

“Editor: sua prioridade absoluta agora é aproveitar a oportunidade e estabelecer uma relação direta com seu consumidor/leitor. Se você não o fizer, as megalivrarias farão. Se elas não fizerem, os autores farão.”

Vídeo: C. S. Soares, “Escrever é tecnologia de diálogo”

 

O escritor, desenvolvedor de software e epublisher C. S. Soares, diretor do Pontolit, fala da interrelação entre a narrativa literária e as tecnologias de comunicação. A conversa ocorreu no Primeiro Encontro do Fórum Autor 2.0, realizado pela Ímã Editorial.

Vídeo: “Por um novo aparato publicador”, Julio Silveira

 

O editor Julio Silveira abre o primeiro Fórum Autor 2.0, que ocorreu no Parque Lage, no dia 3 de Setembro de 2011.
Em uma síntese histórica da evolução livro, analisando a relação entre escritores, leitores e o aparato publicador — nos últimos 800 anos — Julio demonstra que podemos estar às portas de uma revolução.

O fim do papel? Autores debatem futuro dos livros digitais

 

GUILHERME FREITAS

Prosa online

Tema de uma série de debates na 15ª Bienal do Rio e preocupação constante do meio editorial nos últimos anos, o debate sobre o futuro — e sobretudo o presente — das novas tecnologias de leitura e difusão de livros ganhou espaço nesta sexta-feira também na programação do Café Literário. A mesa “Apresentando o livro digital” reuniu a pesquisadora Giselle Beiguelman e os editores Carlo Carrenho e Daniel Pinsky, com mediação da jornalista Cristiane Costa, para tentar jogar luz sobre um momento em que há mais apostas e previsões do que certezas.
Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Giselle Beiguelman trabalha com suportes digitais de leitura há mais de uma década e foi uma das primeiras autoras no país a publicar um estudo sobre o tema, “O livro depois do livro” (1999). Ela criticou as “previsões apocalípticas” sobre o fim dos livros de papel (“Já se pode fazer uma história da morte e ressurreição do livro”) e desenhou um cenário em que as novas tecnologias não substituirão as antigas, apenas as complementarão.
- O livro de papel é a tecnologia mais estável já criada no campo cultural, continua o mesmo há mais de mil anos. O e-book não é só a versão digitalizada do livro de papel, ele vai criar um espaço para si. Livros são, desde sempre, máquinas de leitura em torno da qual se organizam uma série de práticas culturais. O que o livro eletrônico faz é abrir um novo espectro de práticas desse tipo – disse Giselle, citando aparelhos que fazem uso das redes sociais, telas de touch screen e projeções para “tornar mais complexo e interessante o ato de leitura”.
Criador do boletim “Publishnews”, dedicado ao mercado editorial brasileiro, Carlo Carrenho assinalou a discrepância entre a situação nos Estados Unidos hoje, onde a participação dos livros digitais no mercado cresceu de 1% em 2008 para 20% atualmente, com do Brasil, onde, assim como no resto do mundo, essa parcela continua incipiente. Diretor-executivo da Singular, unidade de impressão sob demanda da Ediouro, ele observou que essas tecnologias abrem caminho para que autores publiquem seus livros sem passar pelo crivo de editores. Para alguns críticos, esse processo pode banalizar o meio literário, mas Carrenho discorda:
- Quando Gutemberg inventou a imprensa, a nobreza europeia tinha a mesma preocupação. Um juiz de Florença chegou a dizer que a pena do monge era a esposa, e a imprensa, a prostituta, porque vulgarizava os livros. Hoje há muitos monges florentinos no mercado editorial, mas não podemos temer a democratização – disse Carrenho.
Sócio-diretor da Editora Contexto, Daniel Pinsky defendeu que as maiores possibilidades de autopublicação só aumentam a importância dos editores.
- Há uma grande diferença entre publicar e editar. Comas tecnologias digitais, publicar ficou muito fácil. Mas editar é uma atividade que envolve várias funções, de ajudar o autor a melhorar o livro a definir pontos de venda. Mesmo num cenário em que qualquer um possa publicar seus livros, os editores sempre serão terão um papel fundamental.
Livro digital vai decolar no Brasil quando for melhor difundida a internet em banda larga, tablets mais baratos, e investimento maior das editoras, que por enquanto ainda têm receio dos e-books, principalmente pelo risco maior de pirataria no meio digital. Mas acredita que a partir de 2013 os livros digitais vão representar uma parcela grande do mercado.

Primeiro fórum: 3 de setembro

O digital está libertando os livros das restrições físicas (estoque, distribuição, custos gráficos, divulgação) e liberando o acesso à edição e publicação, além de redefinir o conceito de autoria individual. Os papéis da cadeia do livro — do escritor ao leitor, passando por agentes, editores, livrarias, bibliotecas — podem ser reconfigurados. Autor 2.0 é um fórum para explorar os impactos que o meio digital traz ao livro — com foco nas oportunidades e riscos  para a vida criativa  e econômica do personagem fundamental da cadeia do livro — o escritor. Ao investigar os novos recursos e estudar suas aplicações na cadeia do livro, os autores mapearão as novas formas de se escrever e ler.  
O primeiro encontro acontecerá no sábado, 3 de setembro, a partir das 16h, no Salão Nobre da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro. Escritores, editores e jornalistas vão conversar com o público sobre temas urgentes, como

 

Publicação de narrativas em mídias sociais e suportes alternativos. Quais das experiências terão viabilidade econômica e serão acolhidos pelos leitores?

Narrativas colaborativas, não lineares, wikiliteratura e transmidia. A obra cultural unificada — com texto, imagem, audio, música, links — é convergência ou redundância?

Publicação, autopublicação e distribuição em eBook nos canais aterritoriais, como Apple e Amazon. — Copyright, Creative Commons, a nova economia do livro digital e as novas formas de remuneração do trabalho do escritor.

A livre troca de informações, a marginalia digital colaborativa e a dissolução da autoria individual na internet. Pirataria, plágio, remix e falsas atribuições.

Qual o novo papel do editor e como será a triagem do que vale a pena ser lido com o fim da barreira econômica para a publicação e autopublicação.

 

Para esse primeiro encontro, foi formado um painel de escritores, editores e profissionais do livro de perfis diversos, para que as questões sejam por mais pontos de vista e que as ideias surgim a partir do embate de opiniões. São eles

Cristiane Costa jornalista, escritora, editora e professora, investiga as novas formas de expressão textual com os recursos digitais: as narrativas expandidas.

Marcelino Freire escritor, idealizador da Balada Literária, evento literário e cultural em São Paulo, editor do coletivo Edith. Recebeu o Jabuti por Contos negreiros.

Sérgio Rodrigues jornalista, escritor, editor do site NoMínimo e colunista do TodoProsa da Veja online especializado em literatura, vencedor do Prêmio de Cultura do Estado do Rio em 2011.

Ondjaki escritor angolano publicado em 14 idiomas, vencedor do Jabuti por AvóDezanove e o segredo do soviético.

Carlo Carrenho economista, editor, fundador do portal Publishnews, que há dez anos registra as mudanças no mercado editorial e diretor da Singular, braço de publicação digital (em eBook e impressão sob demanda) do grupo Ediouro.

Simone Campos jornalista, autora de livros publicados em formato tradicional, digital e híbrido. Recebeu a bolsa de criação literária da Petrobras para criação de Owned, livro publicado em papel, online e no formato de jogo.

C. S. Soares escritor multiplataforma, desenvolvedor de software, e-publisher, colunista iMasters, editor do PontoLit, sobre literatura e autopublicação.

 

O debate ficará registrado no site www.autor20.com, que será o fórum permanente para discussão da relação dos escritores com o meio digital, reunindo material pertinente e fomentando a discussão, com o objetivo de compreender e mapear as novas formas de se escrever e ler.

‘O fim do livro’ já cansou. Que tal ‘o fim do escritor’?

 

Sérgio Rodrigues

Todoprosa

O escritor escocês Ewan Morrison provocou um barulho considerável no Festival de Livros de Edimburgo, há poucos dias, com uma palestra (transcrição resumida do “Guardian”, em inglês) tão fundamentada quanto apocalíptica em que, além de dar razão a quem prevê para o futuro próximo o fim do livro de papel (para o qual estima uma sobrevida de apenas uma geração), pinta um cenário em que o próprio ofício de escritor como o conhecemos deixará de existir:

 

Os e-books, no futuro, serão escritos por principiantes, por equipes, por entusiastas de suas respectivas especialidades e por autores já estabelecidos na era do livro de papel. A revolução digital não emancipará os escritoires nem abrirá uma nova era de criatividade: vai levá-los a ofertar seu trabalho em troca de muito pouco ou de nada. A literatura, como profissão, terá deixado de existir.

A futurologia é uma disciplina traiçoeira, mas Morrison não é propriamente um maluco que sobe no caixote para pregar o fim do mundo. Apresenta-se munido de todas aquelas tendências estatísticas já bastante conhecidas que apontam para a progressiva perda de valor do conteúdo na era digital (rumo à gratuidade absoluta?) e para o crescimento aparentemente irresistível da pirataria. Registra a decadência acelerada do sistema de adiantamentos com o qual a indústria editorial nutriu talentos autorais por décadas. Recorre também a teorias como a da “cauda longa”, lançada por Chris Anderson, editor da revista “Wired”. E por fim, de forma um tanto surpreendente, aponta o próprio sonho de independência que a revolução digital provoca no escritor, ao lhe dar a impressão de que pode prescindir do editor “atravessador”, como aquilo que vai acelerar a morte de ambos.

Cenários extremos como o de Morrison podem ser instigantes. Se não soa muito plausível sua previsão do trabalho de criação literária como uma fábrica chinesa ou coreana, superlotada de operários que se matam em troca de cama e comida, os dados que mobiliza certamente apontam para transformações dramáticas no modo de produção e veiculação da escrita. Transformações para as quais, paradoxalmente, um país como o Brasil, em que a profissionalização do escritor ainda não chegou a amadurecer, pode estar mais preparado do que muitos. “Ofertar seu trabalho por muito pouco ou nada” não é uma ideia que a maioria dos escribas canarinhos já tenha tido o privilégio de descartar como aviltante.

“Vamos banir os livros!”

O editor executivo (essas duas palavras juntas muitas vezes formam um oximoro, mas não é o caso) doNew York Times, Bill Keller fez um apelo à sensatez em recente artigo intitulado “Vamos banir os livros! Ou pelo menos parar de escrevê-los!”.Ele pondera, algo esbaforido, que há livros demais sendo publicados, quando a esmagadora maioria poderia encontrar seu público (que muitas vezes limita-se ao próprio autor) em outros formatos de edição, como os digitais. Ou nem existir! Aponta ainda que o digital é a razão, paradoxal que seja, para o aumento de livros vendidos constatado nesses tempos de recessão. E-books respondem pelo ganho de públicos e pela elevação do número de exemplares vendidos, grande a ponto de aumentar a receita da indústria editorial mesmo considerando seu preço de capa inferior à média dos impressos.

De qualquer modo, a avalanche de títulos sobrepuja qualquer capacidade de triagem, e o resultado é que material que mereceria destaque acaba solapado pela oferta. Uma manifestação desse fenômeno são as longuíssimas listas de agentes literários onde se tenta pescar um novo autor em meio a uma maratona de reuniões, como testemunha o editor Luiz Scharcz, da Companhia das Letras.

…no mundo editorial não há mais tempo, ou melhor, o tempo da leitura está se extinguindo. Por causa da competição e da pressa nas respostas, os editores passaram a se basear nas leituras de seus scouts, que antigamente eram remunerados para descobrir livros, que então seriam lidos pelos editores, com o devido tempo. Hoje este tempo tende a se extinguir: pedir uma semana para tomar uma decisão pode soar como um verdadeiro sacrilégio para alguns, um anacronismo.

Para que tanta perna? perguntaria Drummond; para quê tanto livro? pergunta o leitor de retinas tão fatigadas. Bill Keller acha que o digital pode ser tanto o vilão que banaliza o livro quanto o redentor que salvará, economicamente, o mundo literário. “O Kindle e o eBook começaram a ajeitar a lógica econômica baseada na idade média dos livros”. E prossegue:

Mas isso não explica porque de as pessoas escreverem os livros. Os escritores o fazem por razões que geralmente têm pouco a ver com dinheiro e nem tanto a ver com masoquismo quanto você poderia pensar. Existe uma satisfação real em uma história bem contada, uma opinião bem sustentada, um meticuloso quebra-cabeça resolvido. (Perceba o uso do particípio passado. Quando as pessoas dizem que gostam de escrever, querem dizer que amam ter escrito). E é ainda uma credencial, um troféu, um bilhete para os talkshows, conferências e feiras literárias.

Comentando — e concordando com ressalvas — o texto de Keller, Peter Osnos dá seu palpite:

Acho que tem que ser festejado na indústria editorial que tantas pessoas queiram escrever um livro e, baseado nas estatísticas, que mais pessoas estejam comprando-os. Não há como limitar a produção de livros. Mas fica o alerta para escritores, agentes e editores — sejam mais criteriosos no que realmente merece ser publicado. Nesse momento, no entanto, o processo segue para outra direção: a autopublicação, enquanto negócio, está explodindo, e a Amazon, a Apple e o Google, com seus diversos aparelhos e selos, estão abrindo mais ainda a porta porque esses gigantes corporativos vêm os novos empreendimentos editoriais como uma forma de receita — pouco importanto a qualidade.

Há um furo no dique. Preparem-se para uma enxurrada.

Talvez não seja o fim do mundo. Talvez tudo tenha que mudar só para que não mude nada. Talvez seja uma enxurrada, talvez seja só uma gota (ainda que a última).

Vamos pedir a opinião de um (ótimo) escritor:

Durante todo o ano não se interrompe, não cessa essa publicação fenomenal, essa vasta, ruidosa, inundante corrente de livros, alastrando-se, fazendo pouco a pouco, sobre a crosta da terra vegegal do globo, uma outra crosta, de papel impresso. […] Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridículo[…] e balbuciando, com a boca aberta: — Jesus! tanto livro!

Pois é, seu Eça de Queirós (em texto de 1874)… Tanto livro!

Atwood: o autor na torta editorial

 

A escritora Margaret Atwood apresentou na conferência Tools of Change, em 2011, sua esclarecedora e engraçada visão do que seja a cadeia produtiva do livro, e como as novas ferramentas digitais podem redefinir os papéis dos agentes.

 

Esse não é o tipo de coisa com que estou acostumada a fazer, e me disseram que é para eu me dirigir ao centro do palco, em vez de me esgueirar aqui atrás do pódio. Então é isso que eu vou fazer. Olhem só.

Eu nunca tinha feito isso antes (risos).

Não costumo fazer palestras em conferências tecnológicas, porque não sou uma pessoa tecnológica, eu sou uma escritora e nós temos uma visão um tanto diferente. Eu amo o entusiasmo por todas essas coisas novas que me cercaram nessa conferência. Perdoem-me por não ser tão empolgada quanto uns e outros.

Essa é a torta editorial. A torta editorial é todo o negócio que cerca os livros. Todos fazemos parte disso, sejam as pessoas tecnológicas idealistas, sejam os escrivinhadores, como eu. Bem, é sobre isso que estamos todos falando. A indústria editorial está morrendo? E, se estiver, estão os autores morrendo, também?

 

[QUADRO]

— Alguns dizem que as editoras tradicionais, as livrarias, e até os livros, estão morrendo.

— Se for verdade isso, será que os autores vão morrer também?

— Se a internet é o futuro e na internet tudo é potencialmente de graça,

— Então quem pagará pelos queijo-quentes com os quais os autores, como se sabe, subsistem.

 

Para colocar em perspectiva, somente dez por cento dos autores ganham a vida escrevendo o tempo todo. E já que sou uma dessas pessoas, posso dizer que é precsiso trabalhar duro e muito. Então essa é a questão com que nos deparamos:

 

Temos uma certa dose de pânico e, minha primeira mensagem é “Não entre em pânico”. Porque se você entrar em pânico e correr, eles vão achar que você é uma presa. Essa é uma mensagem para meus colegas escritores: não entrem em pânico. Ainda.

 

[QUADRO]

— Primeiro, alguns ditados do norte… 1. Não entre em pânico

 

Então, o que é a publicação, na verdade? Nós aqui falamos de infraestrutura e todo esse papo, mas o que é publicar? É tornar alguma coisa pública.

 

[QUADRO]

Publicar é tronar alguma coisa pública

 

E é só o modo de transmitir alguma coisa de um cérebro para outro cérebro. Não sei se vocês se lembram do filme “Jovem Frankenstein”. Havia uma transferência de cérebro, com o uso de um tubo. Bem, esse era um método de publicação. Um livro é outro método de levar uma coisa de um cérebro para outro cérebro. Não tem necessariamente que ser um livro.

 

[QUADRO]

Ferramentas de publicação

Gritar, cantar, tabuletas de argila, rolos, livros códex, filmes e tevê, grafitti, cartas, outro e A INTERNET.

 

Tem havido um bocado de ferramentas de publicação. Uma delas foi gritar. E depois vieram outras: cantar. Tabuletas de argila, problemas: elas derretem na chuva, rolos, livros códex, o livro gutemberguiano. […]