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Disputando a hegemonia dos e-books, empresas miram os autores

Publishnews, 11 de janeiro de 2012

O ano de 2012 começou com repetidos rumores (aquiaqui e aqui, e aqui, por exemplo) sobre a possível entrada da Apple no segmento de autopublicação. Segundo os pomólogos de plantão, ainda neste mês será revelado que a interface de leitura da Apple, o desenxabido iBooks, ganhará recursos de publicação, voltados tanto para as editoras quanto diretamente para escritores.
Como muitos dos rumores, esse parece surgido menos da realidade do que da vontade de acreditar. Essa, porém, é uma hipótese muito bem endossada pela observação e pela lógica — de mercado.
Se o século 20 foi marcado pelo Grande Jogo — a corrida entre as nações para controlar o suprimento de petróleo —, neste século a disputa parece ser pela hegemonia no comércio de bens culturais digitais. As potências agora chamam-se Apple e Amazon (com uma titubeante Google correndo por fora). A música é território conquistado pela Apple e seu iTunes, porém, no segmento dos livros digitais, a empresa de Cupertino frequenta um lugar que não lhe é muito familiar: a retaguarda. A Apple fica comquatro de cada cem e-books vendido no mundo, contra 56 de sua rival de Seattle.
No front do hardware, a Amazon deu a largada com o e-leitor Kindle (2007), mas seu predomínio foi deletado pela tabuleta da Apple, o iPad (2010). A Amazon reagiu com o Fire, um tablet para as massas. Calcula-se que a próxima jogada da Apple envolveria uma tablet que abafasse o Fire, em termos de preço e recursos.
Também em termos de software a Apple ficou para trás. Seu iBook de estantes de “madeira” não tem aaffordance da interface da Kobo ou a ubiquidade dos kindlebooks. É a evidente defasagem que autoriza os especuladores a acreditar que a Apple vem, enfim, com novidades dignas de Santo Estêvão Jobs.
Já a “interface para escritores” seria a cristalização de uma tendência facilmente observável. Os principais vendedores de livros já montaram seus canais para selfpublishing. A Barnes and Noble tem oPubit e a Amazon acenou com seis milhões de dólares anuais para manter “autoautores” no seu cercadinho, o que pode ser encarado como um ataque preventivo. O fato é que hoje basta um ISBN e alguns cliques no site da Kindle Direct Publishing para que sua tese de mestrado ou sua coleção de sonetos integre o maior catálogo de livros do mundo. Já quem tentar o mesmo na Apple vai encarar uma burocracia intimidadora ou tomará o atalho dos “agregadores”, empresas que levam os editores e escritores à terra prometida da Apple em troca de uma comissão ou taxa.
Um desses agregadores — e líder da “publicação indie” — desqualifica os boatos e afirma que a Apple não vai se meter com autopublicação. Segundo Mark Coker, da Smashwords, a Apple é extremamente ciosa da qualidade do que vende, e teme que, quando a porta estiver aberta, coisas indesejadas possam entrar. (Como esse calhamaço escrito em MAIÚSCULAS, talvez o mais grotesco livro no catálogo da Amazon).
Boato ou não, o fato é que os über vendedores de livros parecem cada vez menos encantados com as editoras e cada vez mais enamorados dos autores. Sejam escritores mais que consagrados, sejam poetastros de gaveta, os autores nunca foram tão cortejados nem tiveram à disposição tantos meios para colocarem seu livro à venda instantaneamente, em escala mundial.
É evidente que esse câmbio de poder — que as megavarejistas digitais de certa forma retiram das editoras e concedem aos escritores — não acontecerá sem traumas. Todos os jogadores (escritores, editores, distribuidores, livrarias) terão que redefinir, a base da conversa ou dos pontapés, seus papéis, seus poderes e direitos.
Por conta do Grande Jogo do petróleo do século 20, o mundo continua em conflito. Como disse Kipling, “quando todos estiverem mortos, o Jogo terá chegado ao fim. Não antes disso”. Vamos esperar que o Grande Jogo digital do século 21 traga mais vencedores — e menos baixas.

Editoras, cuidado: o eBook is not on the eTable.

 

Michael Shatzkin levantou uma lebre interessante em um recente post de seu site: será que as editoras (de livros impressos) conseguirão manter a primazia na publicação de livros (eletrônicos)?

Muito já se escreveu sobre o impacto da autopublicação “roubando” o papel das editoras tradicionais — com as opiniões variando entre a exaltação entusiasmada à liberdade de publicar, de um lado, e o franco desprezo, do outro (“um ebook autopublicado não vale nem o papel no qual está impresso”, disse um editor, parodiando a patuscada de Samuel Goldwin). Shatzkin, no entanto, mostra que há um “concorrente” muito melhor preparado para ocupar o papel das editoras tradicionais: qualquer empresa que gere ou detenha conteúdo pode agora publicá-lo, digitalmente, sem a intermediação de uma editora.

As revistas, redes de televisão e sites estão se dando conta da realidade de que autopublicar ebooks é algo que elas podem fazer sem as complicações (ou sem ter que dividir a receita) de se trabalhar com uma editora. 

Assim, as editoras que quiserem manter-se indispensáveis em ambiente em que o produto predominante (ebook) requer pouco ou nenhum investimento em dinheiro e onde os canais de vendas serão poucos e de livre acesso (como a Amazon), terão que convencer empresas geradoras de conteúdo (vale o mesmo para autores), que a associação com suas marca ou selo trará benefícios que vão além do “prestígio”.

Veja aqui os comentários de Stella Dauer, e a longa e acalorada discussão no blog de Shatzkin.

Editora para quê? Só precisamos de autores, leitores… e da Amazon.

 

Amazon assina com escritores, tirando as editoras da jogada

 

New York Times


A Amazon ensinou aos leitores que eles não precisam de livrarias. Agora está encorajando os escritores a descartar seus editores. 

A Amazon está para publicar 122 livros em diversos gêneros, tanto no formato físico quanto em e-book. É uma aceleração assombrosa do programa incipiente de publicação que irá colocar a Amazon de frente contra as empresas que são também seus mais proeminentes fornecedores.

Ela criou um selo, dirigido pelo veterano editor, Laurence Kirshbaum, para amealhar grandes nomes da ficção e da não ficção. Assinou seu primeiro contrato com o escritor de autoajuda Tim Ferris. Na última semana, anunciou as memórias da atriz e diretora Penny Marshall, pelas quais pagou U$ 800 mil, segundo uma pessoa diretamente envolvida com a negociação.

As editoras dizem que a Amazon está agressivamente seduzindo alguns de seus escritores mais importantes. E a companhia está abocanhando os serviços que as editoras, críticos e agentes costumavam prestar.

Vários editores de grande porte declinaram a dar opinião sobre as tentativas da Amazon. “As editoras estão aterrorizadas, e não sabem o que fazer”, disse Dennis Loy  Johson, da Melville House, que é conhecido por dizer o que pensa. 

“Todos têm medo da Amazon”, disse Richard Curtis, um agente de longa carreira, que é também editor de e-books. “Se você é uma livraria, a Amazon têm sido seu concorrente há um bom tempo. Se você é uma editora, um dia vai acordar e a Amazon estará concorrendo com você, também. E, se você é um agente, a Amazon pode estar roubando seu almoço porque está oferecendo aos autores a oportunidade de publicar diretamente e tirá-lo da jogada”.

“É a velha estratégia: dividir para conquistar”, disse Mr. Curtis.

Os executivos da Amazon, entrevistados no quartel-general da companhia, declinaram em dizer quantos editores a empresa contratou, ou quantos livros eles têm sob contrato. Porém negaram que a Amazon seja assim tão poderosa, e disseram que as editoras estão apaixonadas por sua própria decadência.

“É sempre um fim do mundo”, disse Russel Grandinetti, um dos mais altos executivos da Amazon. “As pessoas marcam no relógio”.

Ele destacou, no entanto, que a paisagem está, de alguma forma, se alterando desde que Gutenberg inventou o livro moderno há cerca de 600 anos. “As únicas pessoas realmente necessárias no processo de publicação são o escritor e o leitor”, disse. “Para todos que estiverem entre esses dois haverá riscos e oportunidades”. 

A Amazon começou a dar a todos os autores acesso direto ao respeitado relatório de vendas Bookscan, da Nielsen, que registra quantos livros físicos eles estão vendendo em mercados específicos, como Milwaukee ou Nova Orleãs. Está introduzindo no mercado um tipo de comunicação direta entre os autores e seus fãs, o que só costumava acontecer em tours promocionais. Fez de um obscuro romance histórico alemão um bestseller, sem que nenhum avaliador profissional tivesse opinado.

As editoras viram de relance um futuro no qual, temem, não haverá lugar para elas quando, no mês passado, a Amazon apresentou o Kindle Fire, um tablet para livros e outras mídias vendidas pela Amazon. Jeffrey P. Bezos, o CEO da empresa, referiu-se várias vezes ao Kindle como “um serviço de ponta a ponta”, concebendo um mundo no qual a Amazon desenvolve, promove e entrega o produto.

Para ter uma ideia de quanto as editoras estão perturbadas pela entrada da Amazon em seu negócio, basta olhar para Kiana Davenport, uma escritora havaiana cuja carreira saiu abruptamente dos trilhos no mês passado.

Em 2010, a senhora Davenport assinou contrato com a Riverhead, uma divisão da Penguin, para o livro The Chinese Soldier’s Daughter, uma história de amor passada na Guerra Civil. Ela recebeu adiantamento de U$ 20 mil pelo livro, que, esperava-se, seria lançado em agosto passado.

Se há alguma coisa que os escritores sabem que fazer, hoje em dia, é “correr atrás”. Assim, a senhora Davenport tirou da prateleira uma coletânia premiada de contos que ela havia escrito há 20 anos, a compilou em um e-book chamado de Cannibal Nights e o disponibilizou na Amazon.

Quanto a Penguin descobriu, ficou “furiosa”, e a acusou de quebrar sua promessa contratual de evitar concorrer consigo mesma. Exigiu que Cannibal Nights fosse excluído da Amazon e que todas as menções a esse e-book fossem removidos da internet.

A sra. Davenport recusou-se e, assim, a Penguin cancelou seu romance e ameaçou processar a escritora, se ela não devolver o adiantamento.

“Eles estão querendo deixar um exemplo: se você se autopublica e distribui com a Amazon, isso é por sua conta e risco”, disse Jan Constantine, uma advogada da liga dos escritores que representa a sra. Davenport.

A escritora sabe de que crime está sendo acusada: o de “dormir com o inimigo”.

Se alguns escritores estão correndo danos colaterais, outros estão se beneficiando desse novo arranjo. Laurel Saville estava de fora da jogada no sistema antigo, quando as editoras de New York eram os gatekeepers (os “guardas dos portões”). “Eu recebia um bocado de elogios, mas nada de fechar contrato”, disse a sra. Saville, 48 anos, uma autora de livros de negócios que mora em Little Falls, Nova York.

Há dois anos ela decidiu pagar pela publicação de seu livro de memórias sobre a decadência de sua mãe, de rainha da beleza californiana a moradora de rua e vítima de assassinato. Gastou cerca de U$ 2.200, e conseguiu vendas de 600 exemplares. Nada horrível, mas longe de impressionar.

No último outono, a senhora Saville pagou U$ 100 para ser incluída em uma lista da Publishers’ Weekly de escritores autopublicados. A revista acabou fazendo uma resenha de seu livro de memórias, com uma avaliação morna que, mesmo assim, chamou a atenção dos editores da Amazon, que enviaram à sra. Saville um e-mail oferecendo a republicação do livro. Ele foi reeditado, ganhou uma nova capa e um novo título: Unravelling Anne. Será publicado no mês que vem.

A sra. Saville não recebeu nenhum dinheiro adiantado, como aconteceria se alguma editora tradicional tivesse escolhido seu livro de memórias. Em resumo, a Amazon tornou-se sua sócia.

“Estou presumindo que eles queiram ganhar um bom dinheiro com o livro, o que me encoraja”, disse a senhora Saville, que negociou seu contrato sem o intermédio de um agente.

Seu contrato tem uma cláusula que a proíbe de discutir os detalhes, o que não é tradicional nos livros. Os planos de promoção do livro também são sigilosos.

Será que a Amazon pode secretamente criar seus próprios bestsellers? The Hangman Daughter foi um sucesso em e-book. A Amazon comprou os direitos do romance histórico e um autor estreante, Oliver Pötzsch, e o traduziu do alemão. Já vendeu mais de 250 mil exemplares digitais.

“O mais importante e fascinante a respeito do programa de publicação da Amazon é que podem surgir fenômenos como esse”, disse Bruce Nichols da Houghton Mifflin Harcourt (grande grupo editorial), que republicou o romance em agosto.

A sra. Saville não mais pensa em uma carreira com uma editora tradicional. “Elas já tiveram sua chance”, disse. Ela agora está escrevendo um romance. “Espero que a Amazon o considere maravilhoso e que sejamos felizes para sempre no mundo editorial”, disse.

 

(editora promete) Autonomia para escritor

 

Em 2009, após 2 anos de fase beta, foi inaugurado o site authonomy, que chamou a atenção da comunidade de editores e escritores não exatamente por implementar as ferramentas colaborativas do digital no processo editorial — mas por ter sido lançado por um grande grupo editorial, a Harper Collins. Será que justamente uma editora legacy estaria democratizando a seleção de textos?

Quem consultar a FAQ, lerá que a ideia é “revelar novos talentos por meio da leitura pública dos projetos de autores inéditos”. Os candidatos a escritor que enviarem seu manuscrito ao site, terão seus textos disponibilizados para leitura, e os visitantes poderão expressar sua opinião com lacônicos “+” e “-“. A cada mês, os livros/projetos que estiverem entre os melhor “avaliados” merecerão a leitura de um editor da Harper Collins e daí — quem sabe — virão a ser publicados.

Entre os bons resultados que a authonomy tem a mostrar estão Miranda Dickinson, que conseguiu o 8º lugar na lista do Sunday Times com Fairytale of New York, e uma penca de outros escritores, que foram publicados tanto pela Harper Collins quanto pinçados por agentes literários.

Por outro lado, foi-se dito (com alguma propriedade) de que o site nada mais era do que uma slush pile digital. Isto é, que a Harper Collins apenas tinha passado para o meio eletrônico aquela “pilha de compostagem” de manuscritos amontoados, e confiado à cyber malta que separasse o (muito) joio do (pouco) trigo.

Outra suspeita recorrente é de que a Harper Collins queria apenas amealhar, entre os candidatos a escritores, clientes para sua empreitada de autopublicação ou de impressão por demanda. Quantos autores, cansados de esperar a avaliação de seus pares ou a boa vontade de um avaliador não estariam dispostos a pagar bem para liquidar a situação e publicar seu livro? E se, ainda por cima, tivesse o aval da Harper Collins?

O fato é que acaba de ser anunciado (para janeiro) um “Selo digital para os melhores autores do authonomy”. Eles não chegarão a entrar no catálogo dos capa duras, mas terão seus ebooks publicados — com a perspectiva de ganharem uma versão impressa se mostrarem-se bestsellers.

Talvez essa “novidade” signifique apenas um passo a mais no caminho que separa a publicação tradicional (arraigada em grandes grupos como a Harper Collins) aos novos parâmetros do digital. Quando esse caminho estiver completo, e a publicação e a leitura digitais estiverem amadurecidas (em breve), oferecer um “upgrade para o papel” para ebooks que venderem bem fará tanto sentido quanto oferecer a prensagem em LPs àqueles MP3 que se destacarem na iTunes store.

 

 

 

Editoras cedem poder a escritores

 

[Algumas editoras legacy têm se dado conta de que o digital está nivelando as ferramentas de publicação, e que publicar e comercializar livros não são mais seus privilégios. Algumas estão agindo, antes que seja tarde demais.]

 

Novo serviço para autores que querem autopublicar e-books

Julie Brosman

New York Times

 

O grupo editorial Perseus anunciou um serviço de distribuição e marketing que permitirá a escritores autopublicar seus próprios e-books.

O novo serviço dará aos autores uma opção entre os outros serviços de autopublicação e um reparte considerável da receita, que é incomum para a indústria: 70% para o autor e 30% para o distribuidor. Os editores tradicionais geralmente repassam aos autores royalties de cerca de 25% no caso de e-books.

O serviço desponta quando autores estão procurando cada vez mais maneiras de contornar o modelo de publicação tradicional, tomando partido das infinitas prateleiras do mundo do e-book e lançando eles mesmos suas obras. Especialmente no caso de reviver livros fora de estoque cujos direitos reverteram ao autor.

[…]

A nova unidade da Perseus, chamada de Argo Navis Author Services, estará disponível somente para escritores que sejam representados por uma agência que tenha assinado um acordo com a Perseus. David Steinberger, o presidente chefe executivo do Grupo Editorial Perseus, disse que a companhia fez um acordo com uma grande agência literária, a Janklow & Nesbit Associates, que tem, entre seus representados, Ann Beattie, Anne Rice e Diane Johnson. A Curtis Brown, Ltd., que representa Karen Armstrong e Jim Collins, também está perto de assinar um acordo para disponibilizar a Argo Navis para seus autores. A Perseus está em entendimentos com mais de uma dúzia de outras agências.

“Fundamentalmente, tornou-se nossa preocupação quando ouvimos, de autores e agentes, que eles estariam procurando alternativas”, disse Mr. Steinberger. “Ouvimos falar de autores que talvez tenham livros que nunca foram publicados, porque não se encaixavam no que suas editoras estavam procurando”.

Ele enfatizou que, ainda que Argo Navis provesse distribuição e serviços de marketing, o escritor faria a função do editor [publisher]. Mesmo que os autores ganhem uma fatia muito maior da receita nesse arranjo, eles receberão menos serviços e apoio financeiro, que geralmente são fornecidos pelas editoras sob contratos mais convencionais.

Em um esforço para solucionar o problema de como ajudar os leitores a descobrir os e-books sem a contrapartida dos livros impressos nas bancadas das livrarias, a Argo Navis fornecerá serviços básicos de marketing, como inserir as páginas do produto nos sites das livrarias. Também disponibilizará serviços mais completos de marketing, mediante uma taxa.

Os e-books serão distribuídos a pontos de venda como a Amazon, a BN.com, a Google, a Kobo, a Sony e a Apple.

Jack W. Perry, um consultor em publicação, disse que o serviço pode atrair aqueles escritores que querem seus e-books publicados com vasta distribuição.

“Muitas vezes, quando as pessoas trabalham seus próprios e-books, têm que fazer um bocado de coisas”, disse. “A Perseus está tentando tirar esse fardo deles”.

Nenhum escritor assinou contrato ainda, disse Mr. Steinberger.

Tim Knowlton, o executivo chefe da Curtis Brown, disse que o serviço era uma opção atraente para autores cujos livros ficaram fora de catálogo ou para livros para os quais os autores retenham os direitos digitais.

“A possibilidade de selecionar quais livros um escritor ou um herdeiro gostaria de colocar para imprimir, e assim fazê-lo de modo relativamente barato, é muito atraente”, disse Mr. Knowton. “Para qualquer livro que tenha potencial para vendas significativas, esta será uma boa oportunidade a explorar”.

 

 

Vídeo: C. S. Soares, “Escrever é tecnologia de diálogo”

 

O escritor, desenvolvedor de software e epublisher C. S. Soares, diretor do Pontolit, fala da interrelação entre a narrativa literária e as tecnologias de comunicação. A conversa ocorreu no Primeiro Encontro do Fórum Autor 2.0, realizado pela Ímã Editorial.

Vídeo: Carlo Carrenho, “Prateleiras infinitas”

 

O economista, editor e jornalista Carlo Carrenho (Singular, Publishnews) fala sobre o impacto das novas tecnologias de impressão no mercado de livros. Conversa registrada no Primeiro Encontro do Fórum Autor 2.0, ocorrido no dia 3 de setembro de 2011, no Parque Lage. Uma realização Ímã Editorial

Vídeo: Simone Campos, “O jogo da narrativa”

 

A escritora Simone Campos, em sua participação no Primeiro Encontro do Fórum Autor 2.0, fala de suas experiências na publicação (impressa e digital) e de seu lançamento Owned

 

 

“Areopagítica”

 

C. S. Soares

Jorge Luis Borges definiu o livro como uma extensão da memória e da imaginação. Creio que o livro também seja uma extensão das circunstâncias, pois muitas das maiores obras já produzidas foram obras de circunstâncias. Outra frase memorável de Borges é aquela que lembra como Platão via os livros: efígies que se julga estarem vivas, mas que, indagadas sobre alguma coisa, nada respondem. Sabemos que o ateniense também afirmou que as ideias residem em um mundo intangível e são construtoras fundamentais da  realidade. O livro-ideia alicerce do livro-objeto, morto como uma efígie, é uma interessante conjectura que admite variadas interpretações. O mesmo acontece com os livros que não abrimos, eles admitem diversas interpretações enquanto gravitam amistosamente no limbo do escrito e não lido, o que não significa que, ainda assim, tenham sido menos comentados.  Que interpretação podemos extrair dos livros não publicados? É um direito inalienável do leitor, a escolha de não ler um livro, direito que não pode exercido, com liberdade, sobre um livro cuja publicação tenha sido sabotada. O direito de publicação também é inalienável. Houve épocas em que livros foram proibidos, censurados e destruídos. Um livro é sempre um símbolo que designa um signo, é algo que representa outra coisa para alguém. O que representa? Que coisa é essa? A quem interessa? Quando Heráclito conclui que o mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque nem o homem nem o rio serão os mesmos, ele fala de um devir que é o mesmo dos livros, dos autores, dos leitores e de seus signos. Certos livros não são escritos apenas para serem lidos, mas também para serem interpretados e outros, obras de circunstância por seu próprio testemunho, são mais do que uma alegação, são uma execução inescapável de humanidade. Os livros que nada respondem não foram os livros de John Milton, o sonhador genial, por sua própria consciência recrutado para as lides polêmicas. Ele parece jamais ter admitido livros omissos. Os livros de Milton não são objetos absolutamente mortos, preservam o intelecto vivo de seus autores, são livros que dialogam, que semeiam ideias que, em condições apropriadas, também podem irromper tão fantasticamente quanto os guerreiros da mitologia grega nascidos dos fabulosos dentes de dragão plantados por Cadmo. Ideias são a principal substância da qual os livros são feitos. Há uma perturbadora causalidade entre o sensível e o intangível que abala nossas superfícies sociais tão falazmente ordenadas. Entre o livro-sensível e a ideia-intangível é estabelecida uma relação de imitação, participação, comunhão ou presença. Há um alerta ao poder das ideias, semeadas nas páginas de Areopagítica, testemunho executório autopublicado por John Milton em novembro de 1644, no qual o autor sugere que livros são tão vivos e fecundos quanto os dentes semeados de um dragão mítico. Areopagítica, cujo nome deriva de Areópago, antigo tribunal de Atenas, é talvez a primeira defesa sistemática do direito à autopublicação da história. Milton identifica três áreas de tensão da publicação independente e do direito de imprensa que até os dias de hoje servem para torná-los controversos: a área política, a área empresarial e a área acadêmica. Não é muito difícil entender porque a tensão ocorre. Quando discutimos autopublicação mexemos com  estruturas bem mais complexas do ponto de vista da organização de uma sociedade. Para começar, a sobrevivência de um estado ideológico se articula no rígido controle das ideias, algo impossível se a autopublicação é permitida. No que diz respeito ao âmbito empresarial, sabe-se que opções viáveis de autopublicação debilitam o modelo de negócios usado há tempos pelas editoras, que se posicionam entre o autor e o publico, como porteiras do mercado editorial. Além disso, é inegável que autopublicação também desafia a noção estabelecida de que apenas autoridades credenciadas têm permissão de contribuir no debate e instrução públicos. John Milton, para quem livros jamais foram coisas absolutamente mortas, o estudioso das religiões, poeta, dramaturgo, orador e político inglês, escreveu e autopublicou Areopagítica, seu eloquente opúsculo, como uma das mais contundentes e apaixonadas defesas filosóficas do princípio e do direito à autopublicação e à liberdade de opinião e de expressão.

Primeiro fórum: 3 de setembro

O digital está libertando os livros das restrições físicas (estoque, distribuição, custos gráficos, divulgação) e liberando o acesso à edição e publicação, além de redefinir o conceito de autoria individual. Os papéis da cadeia do livro — do escritor ao leitor, passando por agentes, editores, livrarias, bibliotecas — podem ser reconfigurados. Autor 2.0 é um fórum para explorar os impactos que o meio digital traz ao livro — com foco nas oportunidades e riscos  para a vida criativa  e econômica do personagem fundamental da cadeia do livro — o escritor. Ao investigar os novos recursos e estudar suas aplicações na cadeia do livro, os autores mapearão as novas formas de se escrever e ler.  
O primeiro encontro acontecerá no sábado, 3 de setembro, a partir das 16h, no Salão Nobre da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro. Escritores, editores e jornalistas vão conversar com o público sobre temas urgentes, como

 

Publicação de narrativas em mídias sociais e suportes alternativos. Quais das experiências terão viabilidade econômica e serão acolhidos pelos leitores?

Narrativas colaborativas, não lineares, wikiliteratura e transmidia. A obra cultural unificada — com texto, imagem, audio, música, links — é convergência ou redundância?

Publicação, autopublicação e distribuição em eBook nos canais aterritoriais, como Apple e Amazon. — Copyright, Creative Commons, a nova economia do livro digital e as novas formas de remuneração do trabalho do escritor.

A livre troca de informações, a marginalia digital colaborativa e a dissolução da autoria individual na internet. Pirataria, plágio, remix e falsas atribuições.

Qual o novo papel do editor e como será a triagem do que vale a pena ser lido com o fim da barreira econômica para a publicação e autopublicação.

 

Para esse primeiro encontro, foi formado um painel de escritores, editores e profissionais do livro de perfis diversos, para que as questões sejam por mais pontos de vista e que as ideias surgim a partir do embate de opiniões. São eles

Cristiane Costa jornalista, escritora, editora e professora, investiga as novas formas de expressão textual com os recursos digitais: as narrativas expandidas.

Marcelino Freire escritor, idealizador da Balada Literária, evento literário e cultural em São Paulo, editor do coletivo Edith. Recebeu o Jabuti por Contos negreiros.

Sérgio Rodrigues jornalista, escritor, editor do site NoMínimo e colunista do TodoProsa da Veja online especializado em literatura, vencedor do Prêmio de Cultura do Estado do Rio em 2011.

Ondjaki escritor angolano publicado em 14 idiomas, vencedor do Jabuti por AvóDezanove e o segredo do soviético.

Carlo Carrenho economista, editor, fundador do portal Publishnews, que há dez anos registra as mudanças no mercado editorial e diretor da Singular, braço de publicação digital (em eBook e impressão sob demanda) do grupo Ediouro.

Simone Campos jornalista, autora de livros publicados em formato tradicional, digital e híbrido. Recebeu a bolsa de criação literária da Petrobras para criação de Owned, livro publicado em papel, online e no formato de jogo.

C. S. Soares escritor multiplataforma, desenvolvedor de software, e-publisher, colunista iMasters, editor do PontoLit, sobre literatura e autopublicação.

 

O debate ficará registrado no site www.autor20.com, que será o fórum permanente para discussão da relação dos escritores com o meio digital, reunindo material pertinente e fomentando a discussão, com o objetivo de compreender e mapear as novas formas de se escrever e ler.

‘O fim do livro’ já cansou. Que tal ‘o fim do escritor’?

 

Sérgio Rodrigues

Todoprosa

O escritor escocês Ewan Morrison provocou um barulho considerável no Festival de Livros de Edimburgo, há poucos dias, com uma palestra (transcrição resumida do “Guardian”, em inglês) tão fundamentada quanto apocalíptica em que, além de dar razão a quem prevê para o futuro próximo o fim do livro de papel (para o qual estima uma sobrevida de apenas uma geração), pinta um cenário em que o próprio ofício de escritor como o conhecemos deixará de existir:

 

Os e-books, no futuro, serão escritos por principiantes, por equipes, por entusiastas de suas respectivas especialidades e por autores já estabelecidos na era do livro de papel. A revolução digital não emancipará os escritoires nem abrirá uma nova era de criatividade: vai levá-los a ofertar seu trabalho em troca de muito pouco ou de nada. A literatura, como profissão, terá deixado de existir.

A futurologia é uma disciplina traiçoeira, mas Morrison não é propriamente um maluco que sobe no caixote para pregar o fim do mundo. Apresenta-se munido de todas aquelas tendências estatísticas já bastante conhecidas que apontam para a progressiva perda de valor do conteúdo na era digital (rumo à gratuidade absoluta?) e para o crescimento aparentemente irresistível da pirataria. Registra a decadência acelerada do sistema de adiantamentos com o qual a indústria editorial nutriu talentos autorais por décadas. Recorre também a teorias como a da “cauda longa”, lançada por Chris Anderson, editor da revista “Wired”. E por fim, de forma um tanto surpreendente, aponta o próprio sonho de independência que a revolução digital provoca no escritor, ao lhe dar a impressão de que pode prescindir do editor “atravessador”, como aquilo que vai acelerar a morte de ambos.

Cenários extremos como o de Morrison podem ser instigantes. Se não soa muito plausível sua previsão do trabalho de criação literária como uma fábrica chinesa ou coreana, superlotada de operários que se matam em troca de cama e comida, os dados que mobiliza certamente apontam para transformações dramáticas no modo de produção e veiculação da escrita. Transformações para as quais, paradoxalmente, um país como o Brasil, em que a profissionalização do escritor ainda não chegou a amadurecer, pode estar mais preparado do que muitos. “Ofertar seu trabalho por muito pouco ou nada” não é uma ideia que a maioria dos escribas canarinhos já tenha tido o privilégio de descartar como aviltante.

O futuro da publicação não se parecerá em nada com o atual.

 

Ilana Fox

FutureBook

 

Na revista Wired deste mês, Alain De Botton escreve que “o empreendedor pega tremores de insatisfação e anseio, e os transforma em interesses comerciais.” De Botton estava escrevendo sobre a Apple, mas seu princípio sobre o empreendedorismo pode ser aplicado à maioria das coisas. Acho perfeitamente adequado levar esse conceito a nossa amada indústria do livro.

Na posição de escritora — mas também como alguém que já trabalhar com o digital há mais de dez anos (jornais nacionais e principalmente no varejo) — sou fascinada pelas mudanças que acontecem na indústria do livro no momento. Aplaudo os esforços da Unbound para tentar criar um novo modelo de publicação, fico irritada com Amanda Hocking por ela ter atraído a geração de leitores do Crepúsculo com seus romances autopublicados que renderam-lhe uma fortuna, e me pergunto se os editores de livros tradicionais realmente são tão descartáveis como muitas pessoas (JK Rowling, eu estou olhando para você) parecem achar. Mas, acima de tudo, eu fico assistindo conferências esperando ouvir sobre a próxima grande coisa.

E espero. E continuo esperando.

O aplicativo Waste Land foi lançado muito recentemente, e como todo mundo, eu o amei. Eu o considero elegantemente feito — é bonito, tátil e abrangente — porém discordo de Bryan Appleyard no Times da semana passada. Eu não acho que ele seja um “ponto de virada para a literatura digital”. Eu acho que é apenas um app: um aplicativo lindo, absolutamente, mas apenas um app, no entanto.

O que eu estou esperando — e você provavelmente também está — é a virada de jogo que venha de dentro da indústria e não dos movimentos da Apple ou da Amazon. Estou esperando por esse momento maravilhoso onde, de repente, alguém surge com algo tão embasbacante que nós saberemos de pronto que a indústria terá mudado para sempre. Há murmúrios de idéias, há conversas que geram inovação, porém, enquanto a indústria do livro não chega a um entendimento com o cenário digital, parece que estamos em um daqueles primeiros encontros de adolescentes — desesperados para fazer o primeiro movimento libidinoso, mas incapazes de fazê-lo ou porque não se sabe bem o que se está fazendo, ou aterrorizados pela perspectiva da rejeição.

Ao contrário dos jornais (que sempre existiram em alguma forma, no papel ou não, porque sempre haverá novidades), ou das roupas (porque, excetuando aqueles em colônias nudistas, todos precisamos nos vestir), os livros podem considerados dispensáveis. Nós não precisamos deles para sobreviver, para ter uma conversa, para aprender. No entanto, paralelamente a este descontentamento, há também desejo — podemos até não precisar de livros, mas os queremos. E se nós os queremos temos que inovar para que o mercado de desejo por livros permanece intacto.

Nos meus instantes mais espertos eu me pergunto por que ainda não chegaram a uma solução, e eu tento colocar minha cabeça para pensar nisso. Parece-me que ficamos atolados nos detalhe, tão preocupados com modelos de precificação e de direitos digitais, que não estamos pensando grande. Não estamos pensando como empreendedores, como start-ups, não estamos achando que tudo é possível. Acima de tudo, precisamos entender que o futuro da indústria não vai se parecer em nada com o atual. Não devemos deixar que nossa tradição nos detenha.

Eu não sei qual será o futuro da publicação, é claro. Sou apenas uma escritora. No entanto, o que eu sei é que, para criar a inovação, precisamos ignorar tudo o que fizemos antes, e precisamos agir de forma empreendedora. Precisamos criar o desejo por livros mais uma vez nos leitores, e precisamos criar possibilidades que talvez pareçam embasbacantes agora, mas que se tornarão padrão no futuro.