Você não terá mais livros. E lerá muito mais.

 

JULIO SILVEIRA

Se você é proprietário de uma biblioteca, montada laboriosamente e exibida com orgulho na sala de estar, já deve ter ouvido de alguma visita algo como “mas para que é que você guarda o livro depois que leu?” ou “se você não vai reler, porque é que fica ocupando tanto espaço com livro?”.

Você pode até se chocar com esses filisteus, mas tem que reconhecer que o raciocínio — deixando de lado o fator afetivo — faz sentido. Em se tratando de pessoas que gostam do livro, há as que gostam do objeto, há as que gostam do conteúdo.

Dentro dessa lógica, duas iniciativas começam a despontar. Uma é da gigante Amazon, e ainda não tem nome ou data de lançamento. A ideia é que, por uma taxa anual, o usuário de um Kindle possa ler qualquer livro do acervo amazônico, no sistema vai-e-vem. As editoras, cada vez mais acuadas, já começaram a estrilar. A resposta da Amazon é que o serviço nada mais é que uma versão 2.0 das bibliotecas — com uma melhor remuneração para as editoras.

Faturar pouco de muitos é a premissa da “Nuvem de livros“, uma empreitada da Gol Editora (sim, a voadora das barrinhas de cereal que singrar outras nuvens). O escritor Antônio Torres, contratado como “curador” do projeto, justifica: “O enfoque é o mesmo do de uma biblioteca, só que virtual”. “Nós não vamos vender livros; as pessoas leem e depois devolvem para a nuvem. É um projeto que tem uma preocupação educacional, que pode atingir escolas, universidades e o público em geral”, conta.

Essa “preocupação educacional” traduz-se à receita estimada de R$ 1,00 por cada aluno da escola pública do país ao mês. Estamos falando de quase 9 milhões. Deve sobrar um bom naco para as editoras, mas, por enquanto, o acervo conta basicamente com os títulos do grupo Ediouro (Nova Fronteira, Agir, Thomas Nelson etc).

Alguém já disse que a música será consumida da mesma forma que dispomos do gás e da eletricidade: por uma conta mensal. Talvez os livros (ou os textos, melhor dizendo) sigam o mesmo caminho e venham por “canos digitais” das editoras até nossa cabeceira. Não teremos mais a propriedade de um volume, apenas a posse (transitória) de um romance, por exemplo. E dessa forma, pelo menos, aquela pilha, ao lado da cama, de livros comprados e não lidos ainda, deixará de seu um embaraço.

 

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